Expresso

Siga-nos

Perfil

Perfil

Atualidade / Arquivo

Médico português anuncia tratamento revolucionário da próstata (vídeo)

  • 333

Martins Pisco acredita ter encontrado um tratamento único no mundo para o crescimento anormal da próstata, sem recorrer a cirurgia. Médicos e pacientes estrangeiros fazem fila, mas urologistas dizem que ainda é cedo para acreditar.

Mário Lino (www.expresso.pt)

James La Giglia, americano de 48 anos, saiu de Hong Kong e veio de propósito para Portugal. Da barriga, espreitava um tubo que fazia a ligação direta da bexiga a uma bolsa exterior.  Martins Pisco, radiologista, prometeu-lhe uma solução única no mundo, em busca de um tratamento alternativo.

"Tinha muitos problemas, tenho este saco desde Março de 2010, pura e simplesmente não consigo urinar. Não tinha dores, apenas desconforto e a minha vida tornou-se muito difícil. Ia a qualquer lado e as pessoas olhavam para mim, por vezes aparecem coágulos de sangue no tubo e vou parar às urgências", descreve LaGiglia, deitado no bloco operatório e prestes a iniciar o cateterismo das artérias da próstata.

James, jornalista numa televisão de Hong Kong, vai manter-se acordado ao longo da intervenção, que durará aproximadamente uma hora. Com viagens incluidas, pagou perto de 6 mil euros por esta solução, porque acredita que poderá mudar a sua vida. "Disseram-me em Hong Kong, que é um país até bastante desenvolvido, que havia duas operações possíveis, uma delas é a TURP (retração transuretral da próstata) mas que aí teria 90 por cento de hipótese de efeitos secundários, tais como não poder mais ter filhos e depois havia também outra hipótese, em Hong Kong e nos EUA que era a operação a laser, mas tinha 60 por cento de hipótese de efeitos secundários, por isso andei à procura de outra alternativa", acrescenta.

Uma vida ligada à Medicina 

João Martins Pisco, 65 anos, é médico radiologista há mais de 30 anos no Hospital Pulido Valente, em Lisboa, mas opera também no privado, no Hospital francês. Foi pioneiro na introdução desta técnica no tratamento dos fibromiomas do útero nas mulheres e agora acredita ter nas mãos a melhor solução para a hiperplasia - o crescimento anormal - da próstata, algo que acontece a mais de metade dos homens a partir dos 60 anos.

Nem todos, no entanto, apresentam sintomas que lhes permitam avançar para o tratamento. "Nós só tratamos se houver queixas, dificuldade em urinar, fazer muitas vezes ou ter um jato urinário fraquinho, bem como quem faz retenção urinária, que não consegue fazer tudo", explica Martins Pisco.

Para o radiologista, que até ao momento já tratou mais de 114 doentes, o truque está na seleção apurada dos pacientes, mas depois - garante - a taxa de sucesso ronda os 90 por cento, à semelhança do que acontece com os tratamentos por embolização no útero das mulheres. Isto faz com que o procedimento esteja a gerar grande interesse por parte dos especialistas de radiologia em todo o mundo.

"Quando há 10 anos se começou a embolização nas mulheres, nos fibromiomas do útero, era apenas um tratamento promissor, hoje é um tratamento comum e com muito poucas complicações para elas. Eu penso que com os homens, este tratamento será também comum daqui a 10 anos, mas para a próstata", afirma ao Expresso Maurizio Grosso, radiologista de intervenção do Hospital Sta Croce, em Cuneo, no norte de Itália.

Médicos de todo o mundo vêm a Lisboa 

Veio com mais três colegas de propósito para assistir ao procedimento em vários pacientes, ao longo do dia. Um deles é Enrique Aguirrezabala, presidente do Conselho de Desenvolvimento Económico Europeu. Com 64 anos, há 12 que aguentava com problemas na próstata. "Nunca tive uma vida muito complicada por causa disto, mas acho que é preferível atacar o problema mais cedo, do que tornar-se complicado mais tarde", diz.

Durante mais de uma década, amigos e conhecidos tentaram levá-lo para a cirurgia. Mas Enrique era avesso a que lhe abrissem o corpo. Até que alguém lhe falou nesta solução, depois de muito pesquisar no Google. "Isto é um método fantástico e estou agora a propôr ao Dr. Pisco levá-lo para todo o mundo, com o nosso apoio, abrindo clínicas na Europa, nos Estados Unidos, no Médio Oriente e na América Latina. Porque isto não é uma questão de dinheiro, trata-se de uma questão de saúde mundial", afiança o presidente do CDEE. Duas semanas mais tarde, garantiu por email ao Expresso estar bastante melhor: "Graças a Deus estou são, correu tudo muito bem e estou de facto melhor. No dia seguinte, até fui logo à piscina e nadei", conta Enrique Aguirrezabala.

Cesare Saluzzo, médico italiano de Pavia, está satisfeito com o que vê, ao observar os monitores de raio X que põem a nú as artérias dos pacientes, enquanto os cateteres deixam pequenas esferas lá dentro, para entupir o fornecimento de sangue à próstata. Desta forma, com menos 'alimento', a próstata acaba por minguar e volta a permitir um fluxo urinário normal.

"A técnica, o procedimento, já é antigo para nós como radiologistas de intervenção mas nós viemos até cá para perceber esta nova utilização que o professor Pisco começou. Queremos ver sobretudo não os aspetos técnicos, mas as indicações e queremos perceber se será possível fazer uma espécie de registo da técnica em Itália, com regras e indicações claras neste novo campo", explica Cesare Saluzzo, médico radiologista de Pavia, norte de Itália.

A embolização arterial da próstata aplica-se a doentes que tenham próstata grande, um fluxo urinário baixo e que não tenham tumores malignos. Também não é um tratamento para a impotência, embora - segundo Martins Pisco - possa revelar resultados em cerca de um terço dos pacientes, dado que após o tratamento deixam de tomar medicamentos que acabavam por ter efeitos nesse campo.

Urologistas ainda não estão convencidos

Para José Palma dos Reis, presidente do Colégio de Urologia da Ordem dos Médicos, a palavra certa é "prudência". "Convém referir que isto se trata de um procedimento investigacional, que ainda não está validado cientificamente pelos pares. Mas desde que os doentes estejam devidamente informados, não temos nada a opor", afirma ao Expresso.

Palma dos Reis admite que até ao momento não houve queixas ao Colégio mas adianta que, para se tornar numa técnica comum, o processo terá de ter ensaios validados em vários centros e que permitam aferir os resultados. Em testes clínicos, seria ainda necessário um grupo de despiste, introduzindo o efeito placebo. Isto porque o placebo - um teste que se aplica aos pacientes, convencendo-os de que foram intervencionados ou medicados quando na realidade não foram - provoca muitas vezes efeitos psicológicos e induz melhorias reais em pacientes, mesmo que estes não tenham sofrido qualquer tipo de tratamento. E isto pode distorcer os resultados.

Pisco, consciente de alguma resistência por parte dos urologistas portugueses, defende-se: "Quando se inicia qualquer técnica, é natural sempre uma certa suspeição, uma certa dúvida sobre a técnica. Mas nós neste momento já temos 114 doentes tratados, claro que nem tudo é sucesso mas a percentagem de sucesso da técnica é de 90 por cento, o que é muito bom. Já convidei vários urologistas a virem cá, alguns não aceitam mas a técnica está a ter uma grande aceitação lá fora, pelos urologistas, pelos radiologistas de intervenção e pelos próprios doentes. Quando têm conhecimento querem ser tratados, porque os riscos da cirurgia são muitos", garante.

Cesare, de Pavia, Itália, diz que o mesmo acontecerá seguramente no seu país, devido a quezílias habituais entre diferentes especialidades da Medicina: "Isso é uma estória antiga, é a nossa história como radiologistas de intervenção. Somos sempre pioneiros, há qualquer coisa de novo. Acreditamos em outros médicos, em cooperar com as outras áreas da Medicina e eles deviam fazer o mesmo, ginecologistas, urologistas, hepatologistas, diabetologistas e todos os ramos da Medicina. Nós estamos numa nova era, a da cooperação", afirma.

Os urologistas portugueses vão esperar para ver: "A comprovar-se será mais uma arma na terapêutica, mas não será nunca seguramente a única", conclui o presidente do Colégio de Urologia.