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Lisboa adulterada no vídeo do Turismo de Portugal

Chama-se "A Beleza da Simplicidade", mas é na realidade um caso complexo. O vídeo do Turismo de Portugal que foi multipremiado internacionalmente promove o país, mas com a geografia de Lisboa adulterada via manipulação de imagem.

Paula Cosme Pinto (www.expresso.pt)

O filme promocional "A Beleza da Simplicidade", do Turismo de Portugal, tem dado que falar um pouco por todo o mundo. Contudo, visto à lupa, percebe-se que adultera as ruas de Lisboa com uma montagem de imagens que adicionam à capital uma verdadeira avenida fantasma. Durante quatro segundos, numa vista panorâmica da cidade, a Rua Braancamp é transformada numa longa avenida, onde se repetem não só os jardins do Parque Eduardo VII, como também a rotunda do Marquês de Pombal. Para enganar o olhar do espectador, apenas a estátua foi apagada da montagem.

Pedro Rocha, engenheiro eletrotécnico que em tempos se dedicou à análise de imagem e algoritmos no extinto INETI e actual LNEG - Laboratório Nacional de Engenharia e Geologia, estava a ver o vídeo recém premiado com o ouro no Festival Internacional de Filmes de Turismo e Ecologia da Sérvia, quando reparou que algo estava mal. "Entre os minutos 2.59 e 3.03 aparece uma rua que não existe em Lisboa. A adulteração da imagem é bem feita e produzida certamente com o intuito de impressionar devido ao efeito da parte noturna, mas não passa despercebida aos olhos mais treinados e conhecedores da cidade", explica ao Expresso o engenheiro, deveras habituado a "verificar e analisar padrões, discrepâncias, harmonias e correlações".

Estes quatro segundo passam despercebidos ao espectador comum, mas se olharmos com atenção é fácil ver a adulteração de imagem apontada pelos olhos experientes de Pedro Rocha. "Temos a Av. Fontes Pereira de Melo que desemboca na rotunda do Marquês e até aí, tudo bem. Na parte superior a essa área, no lugar do prolongamento oposto à desta avenida, no lugar do que seria a Rua Braamcamp verifica-se a olho nu, por simples correlação de formato, texturas e cores de edifícios, que os prédios que ladeiam o fim da Av. Fontes Pereira de Melo e os do BES/Hotel Fénix da rotunda, escandalosamente se repetem no prolongamento do seguimento do olhar para além da rotunda original do Marquês de Pombal", explica o engenheiro. "Em plena área de repetição desse 'padrão', a rotunda ainda permanece mas a estátua do Marquês é removida. E julgo que até mesmo o Parque Eduardo VII é parcialmente repetido".

Onde estão os limites éticos do marketing?

Mas as adulterações não ficam por aqui. A olho nu é também possível ver que, por exemplo, a Av. da Liberdade parece inexistente. "Não retiro todo o mérito aos prémios atribuídos a este filme, mas não me contenho em deixar de falar do ponto negro no meio de uma folha branca, por o tal ponto ser tudo menos um ponto ético", frisa Pedro Rocha. "Deixa-me indignado a forma como ludibriam o público: o português, que não nota e se torna complacente, e o estrangeiro, que desconhece e encaixa o produto como sendo verdadeiro".

O engenheiro eletrotécnico sabe "que a manipulação de imagem se faz desde que o marketing inundou o mercado dos media, mas assim é demasiado descaramento". E deixa no ar a pergunta que certamente paira pela cabeça de quem vê o vídeo e se apercebe da adulteração de imagem:  "Será que a cidade é assim tão feia que há necessidade de a estender por repetição? Será que Portugal é parco em conteúdo turístico de verdadeiro valor que seja necessário recorrer à adulteração da própria capital? Enfim...".

O vídeo foi encomendado pelo Turismo de Portugal à Krypton filmes. O Expresso contactou ambas as entidades e, até ao momento em que este texto foi publicado, nenhuma delas deu qualquer explicação para o sucedido.

Clique na imagem para ver a Praça do Marquês de Pombal no Google Earth

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