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Jaime Neves promovido a general

O militar do 25 de Novembro está reformado em coronel, mas as chefias decidiram promovê-lo a general. Vasco Lourenço diz que "estão a ofender profundamente os militares de Abril".

Luisa Meireles e Rosa Pedroso Lima

Jaime Neves foi promovido a major general - o segundo posto mais alto da carreira militar - por proposta do Exército e com a aprovação das chefias de todos os ramos das Forças Armadas.

O responsável pelo 25 de Novembro e um dos mais medalhados comandos do Exército está reformado em coronel, desde os anos 80. As chefias militares consideraram que o seu "mérito e os serviços prestados à Pátria" justificam a "promoção por distinção".

O ministro da Defesa deu o aval à proposta, que seguiu para Belém para ser confirmada pelo Presidente da República.

Esta prerrogativa, apesar de prevista no estatuto militar, nunca até hoje foi utilizada para promover um oficial na reforma e para mais a um posto de topo de carreira (o grau de marechal, atribuído por exemplo a Spínola e a Costa Gomes, são honoríficos).

A promoção só se torna efectiva depois de aprovada pelo ministro da Defesa e confirmada pelo Presidente da República, Chefe Supremo das Forças Armadas. Segundo o Expresso apurou, o processo já saiu do Gabinete do ministro da Defesa. Nuno Severiano Teixeira que recusou qualquer declaração por considerar que "as promoções não são objecto de comentário até chegarem ao seu término,".

"A promoção foi decidida em Conselho de Chefes de Estado Maior, fundamentada em razões de natureza estritamente militar e por unanimidade", acrescentou a porta-voz do Ministério.

A notícia da promoção de Jaime Neves está já a causar grande polémica entre os militares, sobretudo por coincidir com as celebrações do 35º aniversário do 25 de Abril. E as críticas são tanto maiores quanto nenhum dos oficiais do 25 de Abril foi objecto de tratamento idêntico.

Fonte militar afirmou ao Expresso que a iniciativa surgiu porque se entendeu que "havia mérito, dadas as qualidade operacionais demonstradas por Jaime Neve ao longo da sua carreira. O general Loureiro dos Santos concorda com os elogios às qualidade militares "em combate" reveladas por aquele antigo comando, que "esteve sempre do lado certo na luta pela implantação da democracia em Portugal, seja no 25 de Abril ou no 25 de Novembro".

No entanto, considera que, "aberto este precedente", também devia ser distinguido Vasco Lourenço, actualmente coronel na reforma, cujo contributo foi "relevantíssimo para a democracia".

Vasco Lourenço, capitão de Abril e presidente da Associação 25 de Abril, critica duramente a "absolutamente inédita" decisão de promover Jaime Neves. Em declarações ao Expresso, disse não acreditar "que os responsáveis militares e políticos tenham tanta falta de bom senso e de decoro".

"Não há qualquer razão, quer de natureza militar, quer de natureza política, que justifique um decisão destas que vai contra todas as regras", afirmou, acrescentando que "o curriculum militar de Jaime Neves não o justifica. É um acto que indignifica o Exército e as Forças Armadas".

O militar de Abril aproveita ainda para criticar os responsáveis políticos, considerando que a promoção só se entende se "quiserem refundir Abril, substituindo Salgueiro Maia por Jaime Neves. Estão a hostilizar e a ofender profundamente os militares de Abril e o próprio 25 de Abril", conclui.