Expresso

Siga-nos

Perfil

Perfil

Atualidade / Arquivo

Guterres: "Ajuda a refugiados está em risco"

  • 333

Alto Comissário da ONU para os Refugiados diz que escassez de fundos "resulta das dificuldades económicas dos países doadores mas também, sobretudo, da multiplicação de crises humanitárias".

Maria Luiza Rolim (www.expresso.pt)

O crescente número de refugiados em consequência de conflitos um pouco por todo o mundo, associado à recessão nos países doadores, poderão levar à rutura dos fundos dos organismos dedicados à ajuda humanitária, avança a edição de hoje do jornal "Folha de S.Paulo", que cita o Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, António Guterres.

Em entrevista ao jornal brasileiro, realizada durante a viagem a Teerão para dar assistência a 800 mil refugiados afegãos no Irão, o ex-primeiro-ministro português apela à comunidade internacional para 'abrir os cordões à bolsa', ou seja, reforçar os fundos destinados à ajuda humanitária.

Quatro crises agudas e casos de generosidade

De acordo com o Alto Comissário da ONU, "temos neste momento quatro crises agudas. Síria (250 mil refugiados), Mali (250 mil), um número muito próximo resultante do conflito entre o Sudão e o Sudão do Sul, e, recentemente, grandes fugas de população da República Democrática do Congo rumo a Uganda e Ruanda".

A estas crises humanitárias, acrescentam-se as situações mais antigas, com o Afeganistão e a Somália. "Não só do ponto de vista financeiro mas também humano, é muito difícil encontrar capacidade para responder a tudo isso", diz António Guterres.

Enaltecendo a "política de portas abertas" da Jordânia, Líbano, Turquia e Iraque - países que têm recebido milhares de refugiados sírios, "e que é essencial"-, Guterres refere que a "Jordânia e a Turquia fazem um esforço notável para manter as portas abertas, apesar do impacto inetivável do fluxo de refugiados sobre a sua economia. Há uma grande generosidade que deve ser reconhecida", afirma.

Questionado sobre a  situação no Irão por causa do peso dos refugiados afegãos, o Alto Comissário da ONU diz não temer que os mesmos venham a ser expulsos do país. "O Presidente Mahmoud Ahmadinejad assegurou-me, de forma muito clara, que o espaço de proteção para os refugiados afegãos será mantido".

"O Irão, além de permitir que os afegãos trabalhem e que os seus filhos tenham acesso à escola, pretende regularizar a situação dos que estão ilegamente no país. São poucos os Governos dispostos a isso", acrescenta Guterres.

"Solução para as crises humanitárias é sempre política"

Segundo António Guterres, "nunca há solução humanitária para problemas humanitários. A solução é sempre política". O Alto Comissário da ONU cita, como exemplo, o caso da Colômbia, onde as partes envolvidas concordaram em negociar a paz. "Infelizmente, esta solução parece longe de se alcançar na Síria. O conflito tem tido consequências trágicas para a população que ainda se encontra no país, e para os 250 mil refugiados".

Guterres ressalta, no entanto, a colaboração, até aqui, das autoridades sírias para que o ACNUR (agência da ONU para os refugiados) possa continuar a atuar, dentro da própria Síria,  junto dos refugiados iraquianos (que fugiram após a invasão norte-americana, em 2003). Embora persistam dois problemas sérios no país: "O acesso a certas zonas e a dificuldade em encontrar fundos".