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'Gays' católicos querem ser ouvidos no Vaticano

No final dos trabalhos decidiram enviar as suas reivindicações ao próximo Sínodo. Contam com as Conferências Episcopais para transmissão das decisões aprovadas na reunião de Évora.

José Frota

As associações e grupos ibéricos de homossexuais católicos, reunidos desde ontem em Évora, resolveram, no final dos trabalhos, enviar às respectivas Conferências Episcopais uma carta em que pedem aos bispos de ambos os países "para que lendo os sinais dos tempos se decidam pela necessidade de criarem uma nova consciência para um tempo novo integrando todos os fiéis no testemunho do Evangelho".

No citado documento a que o Expresso teve acesso os 'gays' católicos solicitam ainda aos prelados portugueses e espanhóis que levem a sua mensagem ao próximo Sínodo que se realiza no Vaticano de 5 a 26 de Outubro, solicitando uma "reflexão pastoral profunda sobre a sua condição de homossexuais no seio da Igreja". Mas as suas reivindicações não se ficam por aqui. Exigem " à hierarquia da Igreja que não seja fonte de atitudes homófobas ao opor-se às acções do estado sempre que este promove a igualdade dos seus cidadãos".

A análise das atitudes da Igreja Católica face à questão dos fiéis homossexuais ocupou toda a tarde do dia de ontem. A participação dos espanhóis foi total e agressiva. "Somos discriminados, perseguidos, humilhados e escorraçados por todos os que seguem as consignas do Estado do Vaticano"- queixou-se amargamente Clara de um grupo homossexual de Málaga". Jesus Anguita, da Movimento Esperanza e da Federação Estatal de Lésbicas, Gays, Transsexuais e Bissexuais enfatizou que "a fé em Cristo nada tem a ver com a orientação sexual de cada um". "E uma coisa é a doutrina da Santa Sé, seguidos pelos altos dignitários da Igreja e outro o comportamento dos padres, cada vez em maior número, que nos compreendem e ajudam a resolver os nossos problemas, entre os quais avulta por vezes o do fantasma da culpabilização"-acrescentou

Seguida com muito atenção e aplaudida por todos foi a intervenção de José Manuel Pureza, representante do Bloco de Esquerda que assumiu-se como católico praticante. E realmente, como desde logo o afirmou, "não estava ali para fazer a apologia do projecto do seu partido". Quase todo o seu discurso se norteou pelas críticas aceradas às posições dúplices da Igreja em matéria de Direitos Humanos :"bem no discurso , mal na prática".

"Não é admissível que a Igreja seja firme nos princípios e depois tolerante nos casos concretos. Assim vai ganhando em todos os tabuleiros , pelo exercício da caridade e da compaixão como excepções à rigidez das regras"- continuou. Pureza argumentou ainda que na História da Igreja sempre se deu primazia à transmissão da herança em detrimento da realização afectiva para terminar afirmando " que a instituição eclesiástica se tornou no veículo privilegiado de uma ordem social que considera o amor, o corpo e o prazer como valores suspeitos ".