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França: proibição de orações muçulmanas nas ruas provoca tensão

As orações dos muçulmanos nas ruas das cidades francesas foram comparadas, pela extrema-direita, à ocupação alemã durante a Segunda Guerra Mundial. O Governo proibiu-as mas não há lugar para todos os crentes nos antigos e novos locais de culto.

Daniel Ribeiro, correspondente em Paris (www.expresso.pt)

Em Paris, o acordo assinado entre os responsáveis de duas mesquitas do bairro número 18 (no norte da cidade) e o Governo não agradou a todos os muçulmanos.

A proibição de rezar nas ruas e passeios entrou em vigor na sexta-feira, dia 16, mas, nesse dia, nem todos conseguiram rezar no interior das mesquitas e de um quartel dos Bombeiros transformado à pressa em local de culto muçulmano.

Violando a lei, 200 crentes rezaram numa ruela do quarteirão parisiense de Barbés. Também em Nice, no sul da França, e em Gennevilliers, nos arredores de Paris, aconteceu o mesmo.

Em Marselha, onde, tal como em Paris, as tensões entre muçulmanos, as autoridades e uma parte da população são habitualmente muito agudas, não se verificaram incidentes.

A Polícia não interveio na sexta-feira passada contra as orações na rua, mas o Governo indicou que não tolerará nova violação da proibição na próxima sexta-feira, dando a entender que não exclui o recurso à força para fazer respeitar a lei.

Oferta não corresponde às necessidades

Com as antigas mesquitas e os novos locais postos à disposição dos fiéis, a cidade de Paris tem agora 13 mil lugares disponíveis para o principal dia de oração semanal (sextas-feiras), mas esta oferta apenas corresponde a metade das necessidades, segundo o Conselho Francês do Culto Muçulmano.

De acordo com o Instituto Nacional de Estudos Demográficos, existem no total, em França, 2,1 milhões "muçulmanos declarados" com idade compreendida entre os 18 e os 50 anos.

Os muçulmanos criticam os novos espaços, designadamente o de Paris, por ainda não ter sala de abluções para as mulheres nem carpetes instaladas. Criticam igualmente o facto de não terem acesso ao "quartel-mesquita" de Bombeiros todos os dias - de momento, as orações apenas são autorizadas, nesse local, à sexta-feira. "Estamos a ser tratados como gado", disse um muçulmano na televisão.

O Governo garante que, em Paris, esta solução é provisória até 2013, ano em que deverá terminar a construção de um Instituto das culturas islâmicas que, segundo o Ministério do Interior, resolverá todos os problemas.

"Islamização da França"

Entretanto, Marine le Pen, líder da extrema-direita, continua a denunciar a "islamização da França" e evoca "uma chantagem".

"O Estado francês aceitou uma verdadeira chantagem porque eles ocupam as ruas para obrigar o Governo a violar a lei sobre a laicidade dando-lhes um edifício", disse a chefe do Frente Nacional. Anteriormente, Marine le Pen tinha comparado as orações na rua à ocupação alemã durante a Segunda Guerra Mundial.

Com o aproximar das eleições presidenciais, na primavera de 2012, as tensões religiosas e mais particularmente as polémicas sobre o lugar da religião islâmica na sociedade francesa começam a ocupar cada vez mais um lugar central no debate político.

Sarkozy "inimigo do Islão"

Justificando a proibição das orações nas ruas, o ministro do Interior, Claude Guéant, um dos políticos mais próximos do presidente, Nicolas Sarkozy, disse que os fiéis ajoelhados nas ruas "ferem as sensibilidades de muitos dos nossos compatriotas".

"Rezar na rua não é digno para a prática religiosa, viola os nossos princípios e vou fazer aplicar a lei", acrescentou o governante.

Depois de ter proibido o uso do véu integral em todo o espaço público, o Governo chegou a pensar proibir igualmente as prédicas em línguas estrangeiras, mas recuou, para já, neste projeto - até porque existem em França missas e sermões católicos em diversas línguas, designadamente a portuguesa.

Grupos islâmicos radicais têm regularmente ameaçado a França com represálias, acusando o chefe do Estado, Nicolas Sarkozy de ser "inimigo do Islão".