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França: Marine le Pen ganha na classe operária

Com esta operação em torno da passagem do 600.º aniversário de nascimento de Joana d'Arc, Nicolas Sarkozy tenta recuperar votos no eleitorado da extrema-direita

Michel Euler/Reuters

Para tentar travar a ascensão da extrema-direita no eleitorado popular, o Presidente Nicolas Sarkozy homenageou hoje Joana d'Arc, bandeira dos ultranacionalistas em França.  

Daniel Ribeiro, correspondente em Paris (www.expresso.pt)

"Joana d'Arc, essa rapariga filha de gente muito modesta, é o símbolo do patriotismo francês, mas não pertence a nenhum partido, a nenhum clã". Com esta frase, pronunciada hoje num discurso para celebrar o 600.° aniversário do nascimento da heroína francesa, Nicolas Sarkozy tentou cativar o eleitorado da extrema-direita, que devota a Joana d'Arc, elevada a santa pela Igreja Católica, um verdadeiro culto.

Para homenagear a jovem combatente que dizia ter iniciado a luta contra os invasores estrangeiros por ter ouvido vozes divinas, Nicolas Sarkozy deslocou-se propositadamente à sua terra natal, em Domrémy, no leste da França.

Mas Marine le Pen, candidata da extrema-direita às presidenciais da próxima primavera, disputa taco a taco com Sarkozy a herança política e espiritual de Joana d'Arc e organiza amanhã, em Paris, uma manifestação junto à sua estátua.  

François Hollande à frente

A iniciativa de Nicolas Sarkozy - foi o primeiro Presidente da quinta república a deslocar-se a Domrémy - foi criticada pela esquerda, que denunciou o "namoro" do Presidente ao eleitorado tradicionalista. Segundo os socialistas, o chefe de Estado está a conduzir a pré-campanha eleitoral das presidenciais para "o perigoso terreno do nacionalismo".

"Joana d'Arc é o símbolo do ultranacionalismo", acrescentou Eva Joly, candidata de "os Verdes", norueguesa de nascimento e que fala francês com um forte sotaque. Joly, ex-magistrada francesa, tem a dupla nacionalidade e é muito atacada por Marine le Pen, que mantém a luta contra a "invasão estrangeira" (imigração) no centro do seu programa eleitoral.

Inquieto com as sondagens, que o dão claramente batido nas presidenciais por François Hollande, candidato socialista, Nicolas Sarkozy tentaria, com esta operação em torno de Joana d'Arc, recuperar votos extremistas para garantir a passagem à segunda volta das eleições para o Eliseu.

Marine com dez pontos a mais do que o pai

Sarkozy "vai ter muitas dificuldades para me apanhar", diz Marine le Pen

Sarkozy "vai ter muitas dificuldades para me apanhar", diz Marine le Pen

Ian Langdson/EPA

Sondagens discretas a que o Expresso teve acesso, encomendadas pelo partido do Presidente (UMP) e pelo de François Hollande (PS), continuam a colocar Marine le Pen em ascensão. Uma delas atribui-lhe perto de 40% dos votos da classe operária e do eleitorado popular, com uma diferença abismal em relação aos dois principais candidatos do "sistema" - Hollande e Sarkozy apenas recolheriam 15/16% dos votos das camadas mais desfavorecidas da população.

Comparativamente, e ainda de acordo com estas sondagens, Marine ganharia dez pontos junto do eleitorado popular, em relação à votação do seu pai, Jean-Marie le Pen, em 2002, quando conseguiu disputar a segunda volta das presidenciais contra Jacques Chirac. Reagindo à homenagem de Nicolas Sarkozy a Joana d'Arc, Marine le Pen respondeu assim: "Vejo que Sarkozy anda a correr atrás de mim, mas eu tenho convicções mais fortes, um coração mais puro e pernas mais longas... Portanto, vai ter muitas dificuldades para me apanhar".