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França: 15 mortos, fundos secretos e dois amigos de Sarkozy acusados

Thierry Gaubert, amigo próximo do Presidente Nicolas Sarkozy, à chegada, ontem, a um interrogatório de que foi alvo pela Polícia francesa

Philippe Wojazer/Reuters

Dois próximos do Presidente Nicolas Sarkozy foram acusados por um juiz de financiamento oculto de uma campanha eleitoral em França. Na origem de tudo, um atentado em 2002 que fez 15 mortos, por o pagamento de comissões ocultas a intermediários ter sido alegadamente interrompido por Jacques Chirac.

Daniel Ribeiro, correspondente em Paris (www.expresso.pt)

É o escândalo que mais preocupa o chefe de Estado francês. A sete meses das eleições presidenciais, às quais Nicolas Sarkozy deseja recandidatar-se, um juiz acusou dois seus ex-conselheiros e amigos pessoais de "cumplicidade de abuso de bens sociais" e suspeita de financiamento oculto da campanha eleitoral de Edouard Balladur para a presidência francesa, em 1995.

Na altura, Edouard Balladur era primeiro-ministro e apresentou-se às eleições contra o seu ex-amigo Jacques Chirac, que viria a ganhar essas eleições. Nicolas Sarkozy, então ministro do Orçamento, era o porta-voz de Edouard Balladur depois de ter "traído" Chirac, segundo dizem apoiantes do ex-Presidente francês.

Os dois acusados - Nicolas Bazire e Thierry Gaubert - são do círculo mais próximo de Nicolas Sarkozy. Bazire foi mesmo o padrinho do seu casamento com Carla Bruni, depois do atual Presidente francês ter sido igualmente padrinho do seu casamento. Ambos trabalharam em postos-chave para a campanha de Edouard Balladur, depois de terem estado em destaque em chefias de diversos gabinetes governamentais.

11 engenheiros franceses mortos num atentado

As investigações sobre este caso começaram em 2002, depois de um atentado em Karachi (Paquistão) ter morto, em maio desse ano, 15 pessoas, entre elas 11 engenheiros franceses que trabalhavam para as Oficinas da Construção Naval francesa.

Rapidamente, a investigação orientou-se para um ajuste de contas. O atentado teria sido perpetrado por intermediários paquistaneses ligados aos serviços secretos locais. Os paquistaneses protestariam dessa forma radical contra a suspensão de pagamento de comissões pela França, no quadro de um avultado contrato de venda de armamento francês ao Paquistão.

A suspensão do pagamento das luvas aos paquistaneses teria sido decidida por Jacques Chirac em 1996, depois da sua chegada ao Eliseu. Chirac estaria desse modo a vingar-se de Edouard Balladur e Nicolas Sarkozy, que teriam também recebido comissões secretas sobre esse negócio.

15 milhões numa mala

O juiz que acusou os dois amigos de Nicolas Sarkozy pretende agora interrogar também, entre outras personalidades, Edouard Balladur e Nicolas Sarkozy. Mas este último não poderá ser convocado pela Justiça por beneficiar de imunidade presidencial enquanto estiver no Eliseu.

Nicolas Bazire (à esquerda) e Edouard Balladur, durante a campanha do segundo, então primeiro-ministro francês, ao Palácio do Eliseu

Nicolas Bazire (à esquerda) e Edouard Balladur, durante a campanha do segundo, então primeiro-ministro francês, ao Palácio do Eliseu

Charles Platiau/Reuters

Bazire e Gaubert são acusados de terem participado no financiamento secreto da campanha de Edouard Balladur. Ambos são designadamente suspeitos de terem recebido 15 milhões de francos em notas da parte de Ziad Takieddine, o intermediário que organizou o negócio da venda de armamento ao Paquistão, e também um outro idêntico, na mesma altura, com a Arábia Saudita.

Este último negócio terá dado também origem a comissões ocultas para a campanha de Balladur.

O esquema montado por Takieddine, alegadamente com Bazire, Gaubert, Balladur e Sarkozy, era simples. Os contratos eram assinados por valor superior ao real para serem pagas as comissões aos diversos intermediários e os financiamentos eleitorais em França.

Como ministro do Orçamento, Nicolas Sarkozy teria tido necessariamente conhecimento dos negócios, segundo fontes ligadas ao processo citadas pela imprensa francesa.   

Fotos comprometedoras

Este caso preocupa o atual inquilino do Eliseu porque a investigação vai, sem dúvida, perturbar seriamente a campanha para as presidenciais da próxima primavera francesa.

Nicolas Sarkozy considera as acusações "uma fábula fantasista", mas os seus círculos mais próximos demonstram grande inquietação.

A imprensa publicou há dias fotos comprometedoras para o atual poder francês. Nas fotografias veem-se Takieddine, que tem muito má reputação, com François Copé, chefe do partido de Nicolas Sarkozy (UMP) e Brice Hortefeux, ex-ministro e igualmente amigo dos mais íntimos do Presidente. Takieddine pagaria férias de luxo aos dois homens.

Guerra na direita

Este novo escândalo surge depois de, recentemente, terem sido reveladas informações apontando para financiamentos ocultos de Jacques Chirac através de fundos secretos vindos de diversos países africanos.

A vertigem das revelações sobre estes escândalos tem a ver com o reacender de velhas querelas na direita francesa, designadamente entre os balladurianos/sarkozystas e os chiraquianos.     

Mas o caso que envolve Edouard Balladur e Nicolas Sarkozy é gravíssimo para os dois homens - porque, além dos fundos ocultos, compreende a morte de 15 pessoas inocentes num atentado.  

Martine Aubry, líder dos socialistas franceses, diz que se trata do "de um escândalo de Estado, o mais grave de sempre na direita francesa". 

Presidente francês classifica como "calúnia e manipulação política" o seu alegado envolvimento na campanha de Edouard Balladur às presidenciais de 1995.

Leia aqui o comunicado do Eliseu (em francês).