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Expresso poupa letras e adota acordo ortográfico

Atualizámos a grafia. Mãe já teve i, açúcar já foi com dois ss e sozinho levava acento. Agora atuamos sem c mas admitimos exceções em alguns cronistas. Tentaremos ser ótimos.

Esta é a primeira edição do Expresso escrita segundo o novo acordo ortográfico. Talvez não tenha todas as 3900 palavras alteradas, mas é muito fácil detetar - cá está uma - as mudanças introduzidas por esta uniformização da ortografia entre Portugal, o Brasil e os PALOP (os que já o ratificaram). Os olhos param por vezes durante a leitura, travados pela estranheza de certos vocábulos que perderam o 'c' e o 'p' (consoantes mudas) e o hífen e os acentos. Mas é tudo uma questão de hábito. O que ontem eram erros, hoje são regras. Há que pôr a escrita em dia.

No suplemento Actual os efeitos do acordo sentem-se logo na capa, porque lhe tira uma letra à identidade. O adjetivo que o batiza deixa cair o 'c', vira Atual. Mas ainda não foi hoje. Deve ser o único vocábulo rebelde desta edição do Expresso. A resistência à mudança é, porém, temporária e só justificada por se tratar do nome do caderno. Nas próximas três semanas o 'c' vai tombando, um pouco mais a cada nova edição, até desaparecer. A revista "Activa", também pertencente ao grupo Impresa, optou por não mudar a identificação.

Virada a primeira página, dentro do (ainda) Actual o acordo já vigora. E aqui se encontra uma mudança que gerou controvérsia na redação. Pode dizer-se que o acordo ortográfico alterou um pouco a imagem do outrora 'espectador'. Ao libertá-lo do 'c', tornou-o um misto de bandarilheiro de tourada com um chef e de espetadas madeirenses. Senhores e senhoras, prestimosa audiência, a partir de hoje dita a nova grafia que se chamem espetadores. O 'c' não se lia, é verdade, mas tinha o papel ativo de abrir o 'e'. Curioso é que esta mudança não se vai aplicar no Brasil.

Pegue-se, depois, na revista Única. É sobre festivais. Os Sudoeste, Super Bock Super Rock, Optimus Alive..., repetem-se mais um ano, mas a partir de 2010 estão mais leves de letras. São agora espetáculos de verão, livres do 'c' inútil na parte do show e sem o relevo dado pela maiúscula à estação estival, que os marca com calor e pó. Confunde a grafia igual da "estação entre a primavera e o outono" e "a capacidade de ver futuramente", mas assim mandam as regras. A partir de agora, os nomes das estações do ano, dos meses e dos pontos cardeais escrevem-se com minúscula inicial.

Entra-se na parte do Lazer e no artigo sobre mimos para corpo percebe-se que o acordo transformou dois dos cinco sentidos. Não é imediata a identificação do tato, que mais parece um bicho feio. O olfato ficou diferente, mas não perdeu o sentido, só o 'c'. A área dos Sentimentos simplificou-se. Para falar de uma relação sexual chegam três letrinhas: é um ato.

No Caderno de Economia, parece que o acordo fez uma análise das letras supérfluas e 'despediu' as que não já não estavam no ativo: foi uma razia de 'c'. Ações, acionistas, atividades, diretores, coletar, contrações, corretor, faturas, projeções, retificações, subtrações, transações e vetores escrevem-se agora com menos carateres.

A Política também está mais light: há agora abril, anteprojetos, ativismo, ceticismo. conjeturas, contrarrevolução, diretivas, fações, fraturas, inatividade, objeção, perentório, projeto, retificativo, troica. E neste contexto, ou noutro qualquer, pode dar jeito saber que se escreve cabeças de vento, de abóbora ou de alho chocho sem hifenes.

Os jornalistas socorrem-se, no computador, do corretor ortográfico Flip7 (da Priberam), que transforma automaticamente a prosa antiga na versão correta. Qualquer saudosismo pré-acordo ou até hábito involuntário é 'sancionado' por este polícia da língua com um sublinhado vermelho no ecrã. Depois os textos passam ainda no crivo final dos copydesks. Na impossibilidade da recusa, desenvolveu-se entre alguns indefetíveis uma estratégia de resistência reservada às alterações mais polémicas: sempre que aparece uma palavra com nova grafia, da qual discordam taxativamente, arranjam um sinónimo. A conceção de um projeto, pode muito bem ser substituída por realização. A receção de uma empresa será, para muitos, a portaria.

Até 2014, o Acordo Ortográfico tem de estar plenamente implementado em Portugal. Toda a comunicação escrita - a nível do Governo, escolas, imprensa, empresas... - tem de se reger pela nova grafia. O Expresso arrancou hoje.

Infografia de Francisco J. Lino Rodrigues/Visão

A forma de escrever palavras, a que se dedica a ortografia, não nos porá todos a falar, ou sequer a escrever, do mesmo modo. Mas é uma forma de projetar o nosso idioma

O Expresso, costumam dizer os seus leitores e até os seus mais ferozes críticos, é uma instituição. Embora recusemos essa classificação, no que ela tem de mais institucional, agradecemo-la naquilo em que se refere ao nosso esteio de credibilidade. É, pois, esta instituição, melhor diremos este jornal, que doravante adota o acordo ortográfico.

A nova ortografia entra nestas páginas polémicas à parte. Não queremos com isto significar que o acordo é bom, nem sequer o adotamos por não termos outra hipótese senão fazê-lo. Do nosso estatuto editorial faz parte a defesa da língua portuguesa e é, tão somente, nessa perspetiva que nos colocamos. Consideramos que o português, que nos liga em cinco continentes e é no fundo a nossa pátria, como escreveu Pessoa, fica a ganhar se houver alguma unificação ortográfica, ainda que modesta.

Mas uma consideração de ordem mais prática nos leva a adotar o acordo. Em breve, assentes as ondas da polémica, escrever uma palavra com a grafia que aprendemos na escola parecerá tão desajustado como utilizar as grafias com que Eça e Camilo (para não ir mais longe) escreveram as suas obras literárias. Por exemplo, este título. Se daqui a um ou dois anos escrevêssemos adoptar causaríamos uma estranheza significativa. Seria como agora escrevermos pae ou mãi, a ortografia de antes de 1911.

O Expresso pretende-se um jornal com um grande passado e com um grande futuro. Não poderia ficar agarrado a um conceito por razões de mero conservadorismo ou por alguns dos seus redatores preferirem escrever da forma que aprenderam.

Editorial publicado na edição de 26 de Junho de 2010