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Ex-professor limpa florestas

Casimiro Simões, agência Lusa

Liber Mendes, neto de um marinheiro da Lousã que participou na revolução cubana, já foi professor da Universidade de Havana. Hoje, ganha a vida em Portugal na limpeza de florestas.

Quando chegou a Portugal, em Maio de 2007, Liber Mendes Corzo, de 32 anos, licenciado em Ciências Empresariais pela Universidade de Havana, começou por trabalhar na cozinha de uma pizzaria de Coimbra. Para engordar o orçamento, em Janeiro passado, munido de moto-serra e moto-roçadoira, passou a integrar uma brigada de limpeza de quintas, silvados e matagais. Negociou com o dono da pizzaria a continuidade da sua colaboração à sexta-feira à noite, sábado e domingo. Passa recibos verdes aos dois patrões e, no total, ganha 800 euros mensais ilíquidos.

Desde que chegou a Portugal, Liber procurou trabalho em empresas da região e inscreveu-se no Centro de Emprego da Lousã. "Tentei arranjar emprego como economista, mas sei que está difícil. Nos primeiros meses, gastei as poupanças que tinha", relata.

O luso-cubano sabe, pela história familiar, que "todos os começos são difíceis". Nasceu em Cuba, em 1975, antes de morrer o avô, que durante a II Guerra Mundial se refugiara naquele país e acabou por ser condecorado por Fidel a título póstumo.

O pequeno Mendes cresceu em casa da avó, a havanesa Maria del Cármen, a ouvir histórias de encantar sobre o antepassado português. Sonhava com uma vida nova em Portugal, como que para, simbolicamente, resgatar o avô da separação forçada do país onde tinha nascido.

O avô, Adelino Mendes, participou na Revolta dos Marinheiros, em 1936, e ingressou na Marinha Mercante, em 1940. No ano seguinte, refugiou-se em Havana. Quando saiu de Portugal, escreveu uma carta ao irmão Jerónimo queixando-se da falta de oportunidades em Lisboa "para ganhar o pão-nosso de cada dia".

Liber vive actualmente com a mulher, cubana, na Lousã. "Levanto-me geralmente às seis e meia", diz à Lusa, no final de mais uma jornada de sete horas. Na sexta-feira, "chego a casa ao fim da tarde, tomo banho e apanho logo o comboio para Coimbra, onde faço pizzas até à meia-noite". "Não tenho um dia de descanso. Nem em Cuba eu pensava fazer isto".