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Estalagem da cimeira Nixon-Pompidou em ruínas

Edifício situado na Serreta, em Angra do Heroísmo, é considerado uma das joias da arquitetura modernista portuguesa

Durante dois dias do mês de dezembro de 1971 uma estalagem localizada na mata da Serreta, em Angra do Heroísmo, nos Açores, transformou-se no centro do mundo.

Um número nunca antes visto de jornalistas estrangeiros acorreu àquele edifício com vistas únicas sobre o oceano para fazer a cobertura de um dos mais importantes acontecimentos políticos da época: a cimeira entre Richard Nixon, presidente dos Estados Unidos da América, e Georges Pompidou, presidente francês.

O anfitrião foi Marcelo Caetano, que dormia na então luxuosa Estalagem da Serreta, onde decorriam as conversações. Quarenta anos depois, o edifício, uma das joias da arquitetura modernista portuguesa, concebido pelo arquiteto João Correia Rebelo, está abandonado e em ruína. 

Toxicodependentes na Serreta 

O abandono começou no início dos anos de 1980, quando a estalagem encerrou a sua atividade de hotelaria no âmbito da empresa TurHotel. A partir daí nunca mais lhe foi atribuída uma utilização condizente com as características do edifício e, pelo contrário, acabou cedida nos anos de 1990 à associação de reabilitação de jovens toxicodependentes "Le Patriarche".

O declínio progrediu em rota acelerada e nunca mais terminou, mesmo se a Assembleia Legislativa regional dos Açores classificou a estalagem como imóvel de "interesse público" a 1 de março de 2007.

Comenta-se depois a existência um plano de recuperação, a cargo do grupo açoriano Paim, que, nas diferentes ocasiões em que foi contactado, entendeu não dar qualquer esclarecimento ao Expresso sobre eventuais projetos para a Serreta. Na página oficial do grupo disponível na internet diz-se, no entanto, que a estalagem será reconvertida "num luxuoso Resort e Spa".

Obra-prima do modernismo

Situada na ilha Terceira e com projeto geral concebido entre 1961 e 1963 e projeto de mobiliário elaborado entre 1967 e 1969, a estalagem é vista como a obra-prima do moderno açoriano.

João Vieira Caldas, arquiteto e comissário da exposição dedicada ao trabalho do arquiteto João Correia Rebelo apresentada em 2002 nos Açores, referiu, em declarações ao Expresso, que a estalagem "é o último grande trabalho de João Correia Rebelo em Portugal e representa uma viragem na sua obra que é representativa da viragem que a arquitetura portuguesa estava a ter naquele momento".

Nascido em Ponta Delgada em 1923 e licenciado pela Escola de Belas Artes de Lisboa, João Rebelo era filho do pintor Domingos Rebelo. Começou por trabalhar na sua cidade natal, mas a defesa de princípios muito firmes levou-o a considerar que não estavam reunidas as condições para continuar a exercer a profissão de arquiteto na ilha. Regressou ao continente e em 1969 emigrou para o Canadá, onde veio a falecer.

Correia Rebelo militante do Movimento Moderno

No catálogo da exposição de 2002, elaborado pelo Instituto Açoriano de Cultura, refere-se que João Correia Rebelo, "como muitos arquitetos da sua geração, acreditava que a arquitetura e o urbanismo propostos pelo Movimento Moderno haveriam de mudar o mundo para melhor". Nesse sentido, não concebia uma arquitetura que não recorresse às possibilidades técnicas e materiais do seu tempo, "que não fosse a expressão inequívoca desses recursos, das funções a que se destinava, de um desígnio social".

Homem de convicções profundas, Rebelo distinguiu-se "pelo modo particularmente aguerrido e intransigente com que defendeu aqueles ideais e por ter tentado fazê-lo não só através dos seus projetos, mas também, caso único no Portugal dos anos 50, pela publicação de verdadeiros manifestos".

Particularmente relevantes são os manifestos "Não!", escrito em 1953, e "Senhor Ministro", de 1956, nos quais expressa com grande veemência a sua discordância quanto a algumas opções que estavam a ser tomadas no plano urbanístico, nomeadamente pela Câmara Municipal de Ponta Delgada.

Edifício está em risco

João Vieira Caldas sublinha que este homem, amigo de Nuno Teotónio Pereira, muito católico e membro do Movimento de Refundação da Arte Religiosa, "era uma mentalidade representativa de uma época, que se opõe á mentalidade de hoje, em que a arquitetura pretende ser estrela e todos os autarcas querem ter uma obra de um arquiteto de renome".

Para este arquiteto, a Estalagem da Serreta é um ponto de chegada. "É notável a qualidade com que é implantada no sítio, como se distribui pelo terreno e como a partir dela se estabelece uma relação com a paisagem exterior". 

Se não for acudida, a estalagem corre sérios riscos de sobrevivência. Fez história e recebeu grandes protagonistas da história.

Uma cimeira de europeus contra norte-americanos

A cimeira entre Nixon e Pompidou surgia na sequência das decisões do presidente norte-americano de apostar num dólar cada vez mais forte e impor restrições às importações norte-americanas. Os europeus não gostaram e a França assumiu na cimeira o papel de porta-voz desse descontentamento. Dos acordos então estabelecidos resultou uma desvalorização do dólar e o fim definitivo da sua paridade com o ouro.

Os protagonistas desta cimeira histórica não continuaram muito mais tempo no poder. Georges Pompidou morreu no dia 2 de abril de 1974, vítima de doença divulgada precisamente durante a cimeira. Marcelo Caetano, que nunca se encontrou com os dois presidentes em simultâneo, foi afastado do poder na sequência da revolução de 25 de abril de 1974. Richard Nixon resignou a 6 de agosto do mesmo ano em resultado do escândalo Watergate.