Expresso

Siga-nos

Perfil

Perfil

Atualidade / Arquivo

Do computador Spectrum ao império informático

  • 333

A partir de reparações e biscates feitos em casa, os irmãos Sá Couto, da Póvoa de Varzim, construíram em vinte anos um grupo de nove empresas que factura mais de €100 milhões.

Na origem esteve o Spectrum. O computador que revolucionou o mercado nos anos 80 seduziu o jovem Jorge Sá Couto, estudante de engenharia electrotécnica.

A transferência da Póvoa para o Porto seria decisiva na sua aventura empresarial. A partir de reparações e biscates feitos em casa, Jorge e o seu irmão João Paulo construíram em vinte anos um grupo informático que hoje tem nove empresas e 250 trabalhadores. Em 2007, a JP Sá Couto facturou €100.5 milhões, sendo a previsão deste ano chegar aos 130 milhões sem o 'Magalhães', repartidos pelos mercados português, espanhol e angolano. Só em 2009 é que este equipamento vai ter impacto nos resultados da empresa.

O universitário Jorge embrenhou-se no Spectrum, ficando a conhecer os seus segredos e debilidades. O mercado informático agitava-se e Jorge abandonaria o curso para se dedicar aos negócios. Criou uma pequena empresa de reparação e assistência de computadores, para a qual convidaria o seu irmão mais novo, João Paulo. Na altura, João Paulo também já abandonara os estudos e ganhava a vida como "disc jockey" em bares e discotecas do eixo Porto-Póvoa.

A vocação comercial de João Paulo completava a alma industrial do irmão. Em 1989, os dois filhos de um casal de professores primários iniciavam-se no mundo empresarial.

O negócio prosperou e atingiu uma dimensão que conduziu à criação formal de uma empresa. A experiência adquirida na reparação permitiu aos irmãos Sá Couto fabricar um computador que evitasse os problemas, a partir dos componentes importados de cada fornecedor.

Em 1994, nascia a Tsunami, que terá uma quota de 10% em Portugal. Com a Tsunami a empresa reforçava a aposta no canal de revenda e disponibilizava uma vasta gama de equipamentos, incluindo servidores e "workstations" para as empresas.

Criar em Portugal um pólo tecnológico de fornecedores nacionais em volta da fabricação do computador 'Magalhães' é o objectivo a médio e longo prazo de João Paulo Sá Couto, administrador da JP Sá Couto.

Para já, as memórias do equipamento estão a ser fabricadas na Maia, através de uma parceria estabelecida com a multinacional Qimonda. E as caixas de cartão que empacotam o computador já obrigaram o fornecedor português (Micropack) a investir €3 milhões em equipamento para ter capacidade de resposta. O empresário diz estar à procura de mais fornecedores nacionais.

Além dos 500 mil 'Magalhães' para o programa "e.escolinhas", a JP Sá Couto já tem garantido um contrato de 1 milhão de unidades para a Venezuela que começarão a ser entregues no final deste ano ou início de 2009.

Entretanto, há um negócio com a Líbia em fase de conclusão e abrem-se também boas perspectivas com os PALOP (Angola e Moçambique estão na calha), e ainda Marrocos e Brasil. "Também na Europa existem conversações com interessados", diz João Paulo Sá Couto, mas, adianta, só vai divulgar "quando estiver preto no branco", porque o "segredo é alma do negócio".

Com a fábrica a produzir actualmente 75 mil PC por mês e a duplicar a produção no início do próximo ano, Sá Couto diz que não vai haver problemas de entrega. "se houver necessidade produzimos o dobro com mais um turno", afirma, referindo que no segundo semestre deverá ser atingida a marca dos 250 mil. Neste momento estão em funcionamento duas linhas de produção robotizadas que envolvem 80 pessoas (40 para cada linha de produção).

João Ramos

Portátil a conta-gotas

No sítio Web do "e-escolinha" apenas se diz que o 'Magalhães' "vai ficar disponível muito em breve e que os pais devem perguntar aos professores". Estes nada sabem. Do Gabinete do Plano Tecnológico da Educação garantem que "até ao final do ano lectivo" todos os alunos do 1º ciclo vão receber o pequeno computador portátil. Mas ninguém se compromete com calendários de entrega. O primeiro-ministro, José Sócrates, já anunciou que vão estender a iniciativa ao 5º e 6º anos. Porém, não há promessas para as crianças que entrarem no próximo ano lectivo no 1º ciclo.

A polémica em torno da campanha governamental de distribuição do Magalhães não se fica por aqui. Começou logo pela escolha das 16 escolas de 16 concelhos do país, às quais se deslocaram 11 governantes, entre os quais o próprio primeiro-ministro e a ministra da Educação, para distribuir o presente às crianças. O Governo esclareceu que a escolha tinha por base a existência de banda larga nas escolas. Mas muitos tomaram-no como um brinde.

Os alunos podem adquirir os novos PC gratuitamente (se estiverem no escalão A do abono de família) ou pagando no máximo 50 euros, o que leva as famílias a aplaudir a iniciativa. Os pais individualmente ou as escolas podem depois acordar ou não com as operadoras no mercado o acesso à Internet.

Contudo, a Oposição questiona o financiamento do projecto e pergunta pelo concurso público que entregou a encomenda à JP Sá Couto. O fundador da empresa, João Paulo Sá Couto, acha natural esta parceria porque a empresa estava há um ano a desenvolver um projecto de PC de baixo custo, ao mesmo tempo que o Governo criava o "e-escolinhas". "Como o Governo estava a negociar um memorando de entendimento com a Intel, com quem nós temos um relacionamento de longa data, foi natural que a Intel nos indicasse para a fabricação", explica.

O Magalhães é uma segunda versão do Classmate da Intel e já foi distribuído noutros países. Inicialmente disse-se que era um produto 100% português, mas rapidamente o Governo recuou. A JP Sá Couto diz estar a procurar incorporar mais componentes nacionais. Entretanto, hoje a Fnac prepara-se para o lançamento VIP de 500 'Magalhães'. O preço de venda ao público é de 280 euros, com direito a 30% de desconto no lançamento. Depois será vendido noutras cadeias de distribuição para atingir os idosos.

C.T.

Descobrir o 'Magalhães'

O 'Magalhães' é um produto bem pensado para o objectivo a que se destina: ser utilizado por crianças. É pequeno, leve, resistente e com um design muito bem pensado para atrair os mais pequenos

De português o 'Magalhães' tem, basicamente, o nome. O computador do programa "e-escolinhas", e a mais recente estrela do Plano Tecnológico, é baseado no Classmate PC - computador concebido pela Intel para ser distribuído pelas crianças de países em desenvolvimento. Por isso, podem ser consideradas algo exageradas as palavras do primeiro-ministro quando afirma que este é o primeiro computador cem por cento português.

Aliás, será importante esclarecer que dizer-se que o 'Magalhães' é totalmente fabricado em Portugal é uma hipérbole utilizada para maximizar o efeito político desta acção. Deve dizer-se que é assemblado. Que é como quem monta um "puzzle": a fábrica recepciona componentes dos mais variados fornecedores e monta-os num chassis - também ele previamente recebido. Mas isto não tem nada de mal. Os maiores fabricantes de computadores do mundo seguem exactamente a mesma lógica. É pura optimização de recursos.

É na parte do "software" que o fabricante português intervém de uma forma mais 'livre'. Tudo o que está instalado no 'Magalhães' foi definido em Portugal. Infelizmente, isto não quer dizer que todo o software seja feito em Portugal. Aliás, o sistema operativo que corre em cima do Windows XP, da Microsoft, é o Magic Desktop da empresa norueguesa, Easy Bits. Por isso, é algo chocante entrar pela primeira vez no 'Magalhães' e ver o Ambiente de Trabalho cheio de atalhos para aplicações com nomes como: Easy Learning, Magic Mail ou Talking Parrot. Mas não se assuste.

Os programas estão todos em português. Só os nomes se mantiveram no original. De raiz, em português, só existem aplicações da Porto Editora que teve de batalhar, e muito, para conseguir oferecer, repito oferecer, o software.

Ao que à máquina, em si, diz respeito, o 'Magalhães' é um produto bem pensado para o objectivo a que se destina: ser utilizado por crianças. É pequeno, leve, resistente e com um design muito bem pensado para atrair os mais pequenos.

As duas configurações de hardware que vão estar disponíveis e que diferem, basicamente, no processador e no controlador gráfico servem perfeitamente para executar os programas e as funcionalidades que se pretendem utilizar na sala de aula ou nos tempos livres da criança. E é aqui necessário fazer uma ressalva: quem está a pensar comprar a versão do 'Magalhães' que vai estar disponível em algumas lojas deve ter consciência que este computador não faz, ao contrário do que erradamente muitos têm dito, "o que todos os outros computadores fazem". A configuração, mesmo a mais poderosa do 'Magalhães' tem claras limitações para lidar, por exemplo, com aplicações gráficas mais exigentes. Além do teclado ser bastante pequeno para mãos maiores.

Muito mais haverá a dizer depois de um teste mais exaustivo à máquina e depois de ver a versão do 'Magalhães' que tem um sistema operativo português em Linux: o Caixa Mágica.

O MAIS PODEROSO...

- CPU Intel Atom a 1,6 GHz - Chipset Intel 945 GSE - Controlador gráfico Intel 945 GSE Express Chipset - Disco 30 GB - Memória 1GB DDR2 667 - Ecrã - 8.9" 1024x600 - Conectividade USB (2 portas), Wi-Fi, LAN, slot SD - Multimédia Webcam integrada, entrada para microfone e auscultadores

... E O MENOS PODEROSO

- CPU Intel Celeron a 900 MHz - Chipset Intel 915 GMS - Controlador gráfico Intel 915 GMS Express Chipset - Disco 30 GB - Memória 1 GB DDR2 667 - Ecrã 8.9" - 1024x600 - Conectividade USB (2 portas), Wi-Fi, LAN, slot SD - Multimédia Webcam integrada, entrada para microfone e auscultadores

Por Pedro Oliveira, Director da 'Exame Informática' Texto publicado na edição impressa do Expresso de 27 de Setembro de 2008