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Dias da Música : 'O que a arte pode ensinar'

Satisfeito com o êxito da 4ª edição, António Mega Ferreira anuncia o próximo projecto 'Dias da Música em Belém' de 2011.

Ana Rocha (www.expresso.pt)

Três horas antes de se escutarem os acordes da Nona Sinfonia de Beethoven no Grande Auditório, foi oficialmente anunciada a venda de 29 000 bilhetes e uma ocupação das sete salas do Centro Cultural de Belém (CCB) com cerca de 87% da sua lotação.

Foi o momento propício para António Mega Ferreira, satisfeito com a edição de 2010, lançar-se de imediato para o projecto da 5ª edição dos  'Dias da Música em Belém' com previsão de cerca de 70 espectáculos marcados para os dias 15, 16 e 17 de Abril de 2011.

Serão interpretadas em Lisboa obras de Mahler, Schoenberg, Webern, Albéniz, Turina, Falla, Tippett, Britten, Prokofiev e Stravinsky. Igualmente será dado destaque aos compositores do nacionalismo checo e à chamada 'Música Degenerada' germânica de Alban Berg, Goldschmidt e Schreker, designada como 'Entartete Musik' e activamente perseguida pelo regime de Hitler.

Compositores exilados nos Estados Unidos como Krenék, Korngold e Kurt Weill,  terão algumas das suas obras apresentadas no CCB.

'Arco transatlântico' musical

Para ilustrar este 'arco transatlântico' musical, a designação escolhida para o evento foi 'Da Europa ao Novo Mundo, de 1883 a 1945'. As  balizas temporais estendem-se desde o ano da morte de Richard Wagner (1883) até ao final da II Guerra Mundial com anúncio do espectáculo inaugural (a sinfonia que Dvorák dedicou ao 'Novo Mundo') e do espectáculo de encerramento onde será interpretada uma das obras de Gershwin. 

A expectativa é a de abandonar uma música que Mega Ferreira considerou 'eurocêntrica', procurando novos pontos de apoio do outro lado do Atlântico e estabelecendo linhas de conexão com a  tradição popular norte-americana, com a intenção expressa de se manter no domínio da 'música erudita' para não desfigurar o projecto que dinamizou a partir de 2007.

'O que a arte pode ensinar'

Num dos espectáculos mais concorridos da tarde de domingo (às 15 h no  Grande Auditório) o tenor escocês James Gilchrist entoava loas à harmonia universal numa interpretação dramática e plena de nobreza no fraseado, um modelo de expressividade. Sob a direcção do maestro britânico Matthew Halls, o soprano Gillian Keith  cantou  o que a arte nos pode ensinar ('But oh!What art can teach') com uma adorável  delicadeza de voz. A cantora correu perigos nos agudos mas os resultados foram merecedores.

Foi mais um dos festins dedicados à celebração jubilatória da música de Handel que o Retrospect Ensemble ofereceu  em Lisboa com a 'Ode Para o Dia de Santa Cecília', obra criada em 22 de Novembro de 1739, no dia da santa padroeira dos músicos, em complemento a 'Alexander's Feast'. De dimensões modestas na sua duração, a ode gozou de grande popularidade pela inspiração contínua que jorra desta música interpretada por uma equipa de rara coesão de conjunto orquestral e coral. A equipa britânica teve um protagonismo excepcional  na quarta edição dos 'Dias da Música em Belém.

Nos dois dias anteriores, tinha deslumbrado tanto com trechos de 'O Messias' como também com a oratória 'L' Allegro, il Penseroso e il Moderato', exaltando em vários quadros preciosos a linguagem das paixões barrocas. Halls segue amorosamente a menor inflexão dos seus cantores. É do domínio do admirável a forma como os músicos da orgulhosa Albion sabem fazer as honras às partituras de Handel, o 'Divino Saxão', com Halls a impor uma autoridade rítmica indiscutível à  orquestra que herdou do maestro Robert King.

'Paixões da Alma'

De Inglaterra, vieram também os cantores e instrumentistas de 'I Fagiolini', um agrupamento que, sob a direcção de Robert Hollingworth, interpretou os programas 'Flaming Heart I e II' em torno de obras de Monteverdi. No recital de domingo, predominou uma versão de minimalismo e de sobriedade mesmo na interpretação da poesia de Tasso. O ritmo e a intenção dramática  dos 'Fagiolini' suscitou algumas reservas no 'Lamento della Ninfa' mas recuperou no dueto final de 'Pur ti miro'.

Numa edição em que o tratado das 'Paixões da Alma' de Descartes serviu de mote aos espectáculos,  Hollingworth não tratou as peças de Monteverdi como manifestos a favor da teoria da representação das paixões em música. Preferiu manter em palco a pose tradicionalmente fleumática dos britânicos, economizando na exibição de sentimentos de dor, furor ou ternura. Exalava,  apesar da pose, uma real beleza poética da declamação dos cantores muito bem secundados pelos instrumentistas de cordas.

Ecos de Leipzig e Florença

De Leipzig, a terra natal de Wagner e uma cidade musical por excelência,  chegou um memorável agrupamento, um quarteto de músicos que, no final da tarde de domingo, ofereceu o programa 'Cartas Íntimas' com um par de obras de música de câmara de grande envergadura: o sexto quarteto de Mendelssohn (com o propósito de se constituir como um 'requiem' por Fanny Mendelssohn, a irmã do compositor falecida  em Maio de 1847) e o segundo  quarteto de  Janácek  que o compositor dedicou ao derradeiro  amor do fim da sua vida, Kamila Stosslova, uma mulher casada. 

Trata-se de uma obra que é descrita como "uma conversa em música" onde a paixão, a tensão e a depressão se encontram estreitamente integradas. Bruscamente, uma série de gritos desenfreados de alegria e de tristeza jorra dos violinos, exigindo vigor, virtuosismo e frenesim que o Leipzig String Quartet esteve à altura de  transmitir ao público que esgotou a Sala Fernando Pessoa. O agrupamento alemão foi fundado em 1988 e três dos seus membros foram chefes de naipe da célebre Orquestra 'Gewandhaus' de Leipzig. 

Palmas para Tatiana

Com um programa em torno de duas obras de Tchaikovsky, Tatiana Samouil liderou o Shostakovich Ensemble no sexteto 'Souvenir de Florence, op. 70', uma peça composta em 1890,  depois de ter sido acompanhada pela pianista Rosa Maria Barrantes na 'Meditação' da peça 'Souvenir d'un Lieu Cher'.  Concertino da orquestra do Teatro La Monnaie de Bruxelas, a violinista russa sabe conduzir os seus colegas  a momentos de hedonismo sonoro com a sua bela variedade de timbres. Ela nunca está nas 'meias tintas'.

O sexteto que evoca as cores e a atmosfera de Florença  é uma peça enérgica  e frenética, contendo momentos de raiva concentrada no 'Allegro con spirito'. A  inegável elegância  do som de Tatiana Samouil contagia os que a rodeiam em palco, passando rapidamente para a plateia. Numa obra com um poder quase orquestral, a violinista russa soube homenagear  a engenhosidade  do seu ilustre compatriota.