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Corpos que contam histórias

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corpos que inspiram, que espantam, que provocam, que marcam sociedades e épocas. Homens e mulheres que moldam o físico para atingirem objetivos. Eis oito mundos debaixo da pele.

Bernardo Mendonça (texto) e Tiago Miranda (fotos) (ww.expresso.pt)

Ana Sofia, manequim, 25 anos A modelo que inspira jovens

É uma das nossas modelos de topo. O seu cabelo afro e a figura exótica valeram-lhe um contrato com a famosa marca de lingerie americana Victoria's Secret - que já teve a desfilar deusas como Gisele Bündchen, Naomi Campbell ou Heidi Klum. Com um corpo de deusa (82 de peito, 62 de cintura e 92 de anca), o seu novo desafio é a caixinha mágica. Acaba de ser escolhida como a nova apresentadora da MTV Portugal e espera inspirar milhares de africanas. "Os adolescentes afro precisam de heróis."

Carla, prostituta, 31 anos A mulher que se vende por prazer

Há cinco anos despediu-se da família em Minas Gerais, no Brasil, para se instalar num apartamento em Lisboa onde passou três meses na cama de corpo disponível. Veio para dar prazer e enriquecer. Chegou a atender 20 homens num só dia. Foi a vertigem do dinheiro fácil e a atração por uma nova vida de luxúria que a trouxe a Portugal. O incentivo veio da irmã que largara o balcão para cobrar por serviços íntimos. "Dei-me bem. Tenho o dom da sem-vergonhice".

Jorge Cunha, culturista, 36 anos O Mr. Músculos português

Jorge está em baixo de forma. Tem quase mais vinte quilos em cima do que tinha no ano passado, quando subiu ao pódio para receber a Taça de Portugal de culturismo. O grande título português que distingue anualmente o homem com o corpo musculado mais harmonioso do país, atribuído pela Federação Lusa de Cultura Física. Um concurso de beleza para durões. Em que não é o mais forte ou que levanta mais pesos que ganha, mas aquele que com os seus músculos enche mais os olhos do júri.

Alexandre Fernandes, bailarino, 42 anos Um corpo que se eleva ao limite 

Há três anos colocou uma prótese de titânio na anca. Por desgaste. Vinte e três anos a dançar, saltar e sofrer impacto na receção ao solo. Fez parte do elenco do European Ballet, em Londres, e é bailarino principal da Companhia Nacional de Bailado (CNB) desde 1995. Durante os seis anos anteriores à operação, Alexandre dançou com a dor. Agora é um bailarino em reconversão. Não pode continuar a dançar ballet. Tem limitações. Dança hip hop e negoceia a hipótese de ser professor da CNB. Uma passagem de testemunho que não encara como trágica. "Vejo-me no futuro a coreografar e a ensinar."

Betty Grafsteins, empresária, 79 anos A lady das plásticas

Ela é uma criação dele. Uma musa retocada e repuxada em todos os lugares possíveis do corpo para tentar iludir as rugas, as manchas e a flacidez da idade e corresponder aos ideais de beleza de José Castelo Branco. O marchand de arte quer sempre fazer mais algum retoque nela. Só mais um. Aqui e ali. Para que fique "estupendo", para a maquilhagem brilhar mais, os fatos das melhores marcas assentarem como numa manequim e o rosto ficar (quase) perfeito, sem a mácula do tempo. Não dá para contabilizar o número de intervenções a que lady Betty já se submeteu. Nenhum dos dois, o casal mais excêntrico e exuberante do jet set português, sabe ao certo. Muitas. Talvez demasiadas. À beira dos 80 anos, Betty é uma senhora charmosa com uma pele de pêssego num rosto sem idade, mas o esqueleto não consegue esconder o que a pele disfarça. 

Jorge Pina, atleta paralímpico, 36 anos O corredor que não vê

Do olho esquerdo não vê rigorosamente nada. Do direito, vê vultos e algumas cores. Com apenas 10% da visão vai participar este ano nos Jogos Paralímpicos de Londres e, por cá, é instrutor de aulas de RPM, boxe e corrida num ginásio. É um herói. Um bravo. Continua com a mesma forma física que fez dele tricampeão nacional de boxe em três categorias: 67 kg, 71 kg e 75 kg. Há três anos, criou uma associação com o seu nome para ajudar jovens em risco de exclusão. E, com dois outros treinadores, passou a dar aulas de boxe no bairro dos Lóios, em Chelas, para criar pugilistas e homens preparados para a vida. "Quero que se inspirem em mim e fujam dos problemas do bairro."

Júlia Pereira, estudante, 22 anos A rapariga que nasceu rapaz

Há melancolia nos olhos de Júlia melancolia. Nasceu no corpo errado e é hoje legalmente uma rapariga, mas ainda com sexo de rapaz. O conflito começou aos nove anos quando na escola percebeu a razão de brincar como as meninas e de ter por hábito urinar sentada.  Aos 16 foi diagnosticada como transexual e o ano passado alcançou uma nova vitória: a 16 de março de 2011 entrou em vigor em Portugal a nova lei que legaliza a mudança de sexo e de nome próprio. E Júlia passou a ser considerada mulher no BI. Só falta a derradeira transformação: a operação de mudança de sexo. Mas por má sorte o único médico do Serviço Nacional de Saúde que realizava essas operações reformou-se e deixou Júlia e mais 19 transexuais sem cirurgia. Até agora nenhum médico o substituiu. Júlia continua a adiar uma parte importante da sua vida. A não viver a sua sexualidade e a resistir aos seus impulsos. A meio do curso de Artes e Humanidades na Faculdade de Letras de Lisboa, estuda as hipóteses de conseguir fazer a operação no privado, que ronda os 15 mil euros. Para ser a Júlia em pleno.

Ana Malhoa, cantora, 33 anos A coelhinha da "Playboy"

É a pimenta latina da nossa cultura pimba. Ana Malhoa fez esquecer de vez a menina do programa infantil "Buéréré" (que animou as manhãs de sábado e de domingo da SIC, nos anos 90) quando se mostrou em poses sensuais para a revista "FHM" e tirou a roupa para a "Playboy". Desde aí, os seios da cantora permaneceram um tema à solta na Internet. Pela ousadia e pelo novo formato mamário desde que optou por colocar próteses de silicone aos 21 anos, após ser mãe. Como muitas estrelas americanas, tem cada vez menos espaço na pele sem tatuagens. É como se fosse o seu diário de bordo. No braço esquerdo, do lado do coração, tem gravado o nome da filha, do marido e o rosto da mãe (falecida este ano). Nas costas, o rosto de uma pin-up com o dedo na boca. Chama-lhe amuleto. "Não fales mal nas minhas costas, é o que quer dizer." No dedo anelar um "J" de Jorge, o marido, faz a vez da aliança, que deixou de usar. E não se ficará por aqui. "Será um processo ao longo da vida. Que contará a minha história."