Expresso

Siga-nos

Perfil

Perfil

Atualidade / Arquivo

Cientistas portugueses descobrem porque falha o coração

  • 333

A diminuição ou falta de comunicação entre células que altera o batimento do coração deve-se a um mecanismo agora descoberto por portugueses.

Uma equipa de investigadores de Coimbra identificou um novo mecanismo responsável por falhas de comunicação entre células do coração que pode estar na origem das doenças cardíacas, foi hoje anunciado.

A investigação, liderada pelo bioquímico Henrique Girão e publicada na revista "Molecular Biology of the Cell", permitiu descobrir um mecanismo que leva à diminuição ou falta de comunicação entre as células, desregulando o normal batimento cardíaco.

Esse desregular do batimento cardíaco acaba por ter implicações importantes no desenvolvimento de doenças, como a coronária, insuficiência cardíaca, arritmias e enfarte.

Os estudos realizados demonstram que a "ubiquitina assume o papel principal na degradação da conexina43 (Cx43), a proteína que assegura a comunicação rápida e eficaz entre a maioria das células, contribuindo para o normal funcionamento de órgãos e tecidos", refere uma nota hoje divulgada pela Universidade de Coimbra.

"Trata-se de proteínas muito importantes no coração, são como que canais que permitem a comunicação eficiente entre as diferentes células do coração, o que é importante para que ele bata de forma regulada e controlada", disse à Lusa o investigador.

No caso do coração, os canais de comunicação intercelular "asseguram a propagação rápida de um sinal que está na origem do batimento", ou seja, as alterações nessa comunicação, mediada pela Cx43, poderão estar na origem de doenças cardíacas.

No fundo, o que os investigadores da Universidade de Coimbra identificaram foi "o mecanismo responsável pela remoção da Cx43 da membrana das células, e posterior eliminação, resultando numa diminuição, ou ausência, da comunicação entre as células".

Segundo Henrique Girão, a grande novidade do estudo foi "demonstrar que uma via de degradação denominada autofagia participa na degradação da conexina43 presente na membrana plasmática das células, e que a ubiquitina tem um papel regulador neste processo".

Os resultados alcançados "podem ter um impacto grande" ao nível do tratamento, porque - explicou o investigador à Lusa -, uma vez identificado o mecanismo responsável pela desregulação da comunicação intercelular, "se inibirmos a autofagia talvez o tal coração em isquemia consiga prevenir algumas das alterações que seriam nocivas" para o órgão.

Nesse sentido, "abre-se caminho para o desenvolvimento futuro de novas abordagens terapêuticas que previnam ou impeçam a eliminação destes canais de Conexina43" e, deste modo, assegurem uma correta comunicação entre as células, disse.

O estudo foi realizado recorrendo a células em cultura e irá agora prosseguir em ratos sujeitos a isquemia cardíaca, de forma a avaliar o impacto da descoberta.

O objetivo é também perceber como é que as alterações da comunicação intercelular contribuem para o aparecimento de outras doenças, como o cancro e a diabetes, afirma o investigador do Instituto Biomédico de Investigação de Luz e Imagem.

O estudo conta com a colaboração de cardiologistas do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, de uma investigadora da Universidade de Einstein, Nova Iorque, e de um grupo de cientistas da Universidade de Dundee, na Escócia.