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Chirac critica Durão Barroso nas suas memórias

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Apesar dos sorrisos patentes na imagem, Jacques Chirac diz nas suas memórias que teve «conversas pouco simpáticas» com Durão Barroso

No 2.º volume das suas memórias, Jacques Chirac critica Durão Barroso pela sua posição sobre a guerra do Iraque e por ser "prisioneiro de uma visão ideológica" liberal da União Europeia.

Daniel Ribeiro, correspondente em Paris (www.expresso.pt)

A inclusão, em "Le temps présidentiel" (segundo volume das suas memórias), de uma foto a cores de Jacques Chirac e Durão Barroso, cumprimentando-se, muito sorridentes, é a única nota simpática, no livro de mais de 600 páginas, do antigo Presidente francês em relação ao atual presidente da Comissão Europeia.

Jacques Chirac critica Durão Barroso pela sua posição pró-americana na guerra no Iraque - assunto a que se refere longamente, revelando os bastidores da dura querela política e diplomática que então opôs a França aos Estados Unidos da América, na altura dirigidos por George W. Bush.

Chirac garante que avisou diversas vezes, pessoalmente, tanto Bush como os seus aliados, das consequências negativas da guerra e da posição, que então prevaleceu, da coligação militar liderada pelos norte-americanos atacar o Iraque sem mandato das Nações Unidas.

"Discussões tempestuosas" com Aznar

Neste capítulo, o ex-Presidente francês é particularmente duro, sobretudo com o primeiro-ministro espanhol da época, José Maria Aznar, com quem afiança ter tido "discussões tempestuosas".

"A 17 de março (2003), depois de terem decidido na véspera, nos Açores, sob a presidência do primeiro-ministro português, José Manuel Durão Barroso, potência que convidava (sic), os defensores da guerra registam o impasse em que se encontram e decidem retirar o seu projeto de resolução (na ONU), acusando diretamente a França de ser responsável (...) Na madrugada de 20 março, a coligação desencadeia as hostilidades contra o Iraque", escreve Jacques Chirac.

O antigo Presidente da França acusa designadamente a Grã-Bretanha, Espanha, Portugal, Itália e alguns países do leste europeu de terem dividido a Europa e o consenso que chegou a estar definido para a União Europeia tomar uma posição conjunta sobre a "questão iraquiana".  

Durão Barroso "nunca compreenderá..."

O ex-chefe de Estado francês responsabiliza igualmente Durão Barroso por ter contribuído para a vitória do "não" no referendo francês sobre a Constituição europeia, em 2005.

Evocando o "projeto de diretiva Bolkenstein" que, segundo escreve, "visava liberalizar os serviços na Europa", Jacques Chirac diz que teve "conversas pouco simpáticas" com Durão Barroso: "Tive, a este respeito, conversas pouco simpáticas com o presidente Barroso, tentando fazer-lhe compreender que cada uma das suas intervenções a favor desta diretiva indispõe um pouco mais os franceses". "Mas, prisioneiro de uma visão ideológica da Europa, ele nunca compreenderá que o projeto que ele incarna nos é estranho (aos franceses)", conclui o ex-inquilino do Eliseu.

Largos elogios a Lula e críticas a Sarkozy

Em "Le temps présidentiel" (que se segue ao primeiro volume, "Chaque pas doit être un but", ambos nas edições "Nil"), Jacques Chirac dá grande relevo às questões internacionais durante os seus dois mandatos no Eliseu (de 1995 a 2007).

Revela designadamente uma sentida admiração pelo ex-Presidente brasileiro, Lula da Silva, que considera ter sido um "chefe de Estado foram do comum que soube manter-se igual a ele próprio no exercício do poder, caloroso, simples, fraterno e com uma profunda humanidade".

Já sobre a política interna francesa, Jacques Chirac arrasa o seu sucessor no Palácio do Eliseu, chamando Nicolas Sarkozy de "impetuoso e nervoso" (ler edição impressa do Expresso, da semana passada).