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Chile: Funeral público para Victor Jara

Durante três dias de celebrações ininterruptas, chilenos vão evocar a memória do cantor e dramaturgo Victor Jara, o símbolo da resistência contra Pinochet.

Valdemar Cruz (www.expresso.pt)

Trinta e seis anos depois de ter sido assassinado no estádio Chile, onde foi submetido a cinco dias consecutivos de tortura, o cantautor chileno Victor Jara terá desde hoje até as dez horas do próximo sábado um velório simbólico na sede da fundação com o seu nome, na Praça Brasil, em Santiago do Chile. Sábado, depois de um vasto conjunto de iniciativas culturais com música e poesia, será feito o funeral para o cemitério Geral, onde os seus restos mortais foram exumados.

Vítor Jara foi detido a 11 de Setembro de 1973, horas depois de iniciado o golpe de Estado desencadeado por Augusto Pinochet contra o governo de unidade popular de Salvador Allende. Levado para o estádio onde passaram a ser concentrados os prisioneiros por falta de espaço nas prisões, o também dramaturgo foi submetido a várias sessões de tortura e acabou por ser assassinado.

O coronel chileno Mario Manríquez, já na reforma, foi formalmente acusado em Maio do ano passado pela justiça do seu país de ser o responsável pelo assassínio daquele que ainda hoje é considerado um dos grandes representantes da "nova canção" latino-americana dos anos 60 e 70. Há, no entanto, outros participantes no assassínio não identificados pelo tribunal, como um oficial apelidado de "El Príncipe". Grupos de direitos humanos têm referido que a sua identidade não é nenhum mistério. Tratar-se-ia, segundo a organização não governamental Comisión Fura, do ex-tenente do exército Edwin Dimter Bianchi, que agora desempenha um cargo nas Associações dos Fundos de Pensões.

Destacado militante comunista, Jara era um conhecido apoiante do presidente socialista Salvador Allende. A documentação revelada o ano passado pela justiça chilena demonstra que o cantor foi torturado, as suas mãos - com que tocava viola - esmagadas à coronhada e, finalmente, abatido a tiro. A investigação ao brutal assassínio deste símbolo internacional da resistência contra o regime de Pinochet decorria desde 2005.

Funeral clandestino

A 18 de Setembro de 1973, Joan Jara, companheira de Victor, sepultou-o clandestinamente, acompanhada de apenas duas pessoas. A 4 de Junho deste ano, Victor Jara foi exumado na presença de Joan e das suas filhas Amanda e Manuela. O objectivo era trasladá-lo para o Instituto de Medicina Legal de modo a poderem ser realizadas as peritagens necessárias à investigação em curso. Os relatórios dos peritos foram concludentes e confirmaram tudo quanto se tinha dito sobre os tormentos a que fora submetido Victor Jara.

Os especialistas do Serviço Médico-legal recolheram amostras de ADN, também de familiares do músico, e enviaram-nas ao Instituto Genético de Innsbruck. Esta instituição austríaca confirmou que os restos são de facto do autor de "El derecho de vivir en paz" e concluiu que a morte resultou de múltiplas feridas na cabeça, tórax, abdómen, pernas e braços.

Victor Jara terá agora, por fim, direito a um funeral à vista de todos, segundo as tradições que compartia com a sua mãe, Amanda Martínez, a quem acompanhava a cantar em velórios.

A família pretende transformar este ritual numa celebração de três dias ininterruptos, com canto, música, dança e poesia. Será o último adeus a um homem cuja voz nunca partiu.