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Carvalho da Silva: "Crise é o maior roubo organizado da História"

O secretário-geral da CGTP diz que seguir o PEC é persistir nos erros do passado e quer sociedade mais interventiva. Para resolver a crise, diz que não vale a pena baixar salários, nem mesmo os ordenados avultados dos gestores.

Mário Lino, correspondente no Algarve (www.expresso.pt)

"É verdade que muitos grandes grupos empresariais quer financeiros quer económicos podem muito bem reduzir as retribuições dos seus gestores porque é imoral aquilo que eles ganham mas cuidado porque este não é o problema de fundo, o problema é que alguns destes grandes gestores que ganham milhões por ano são pagos pelos grandes accionistas", avisa Carvalho da Silva.

"Esses anúncios panfletários, a dizer, vamos aqui reduzir salários, lembremo-nos só disto: em média, os custos dos salários nos custos globais da produção no país representam em média cerca de 12,5 a 13 por cento, há 87 ou 88 por cento dos custos globais de produção que são outros factores", acrescenta.

Numa conferência hoje em Faro, organizada pela Faculdade de Economia, o secretário-geral da CGTP-IN - que é sociólogo de formação - afirmou que é preciso um novo contrato social que fomente a criação de emprego, limitando o 'financeirismo' e valorizando o trabalho.

Valorização do trabalho

A valorização do trabalho, que implica a não redução dos salários, não deve ser só financeira, explica Carvalho da Silva, dando a precariedade como exemplo: "Como é que vocês, jovens, para quem hoje não existe qualquer estabilidade, podem pensar na sociedade e em coisas como constituir família e construir um futuro, com a precariedade que existe? Isto já não é só um problema económico, é um problema estrutural de toda a sociedade e vamos ter que ser todos nós a resolvê-lo", afirma.

Falando da saída da crise, sobretudo através da criação de emprego, Carvalho da Silva não poupou críticas ao sistema financeiro e às decisões dos governos para 'tapar os buracos': "É o maior roubo organizado da História. O dinheiro mobilizado pelos governos em menos de um ano para tapar buracos é 58 vezes o orçamento das Nações Unidas para o combate à pobreza", garante.

O PEC não dá futuro

Numa altura em que a União Europeia está a analisar o Pacto de Estabilidade e Crescimento proposto pelo Governo português, preparando-se para exigir medidas mais fortes de contenção da dívida, Carvalho da Silva diz que está em sintonia com a UE, embora em pólos opostos: "Nós também estamos contra o PEC, mas porque essa persistência nas políticas que levaram à crise não dá futuro. Nós vamos ter que sacudir estas pressões. A crise não é o problema da cotação das acções na bolsa. O problema é o desemprego, a pobreza, a precariedade no trabalho, as desigualdades e a ausência de justiça e para responder a isso só há uma saída que é criar emprego", diz.

"Se o descalabro desta visão neoliberal de privilegiar o financeiro em detrimento das pessoas, se isto continuar vamos assistir a convulsões sociais muito fortes e perigosas", conclui.