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Atualidade / Arquivo

Cardoso Pires é um "escrínio de jóias"

A família do escritor ofereceu à Biblioteca Nacional o espólio do romancista, falecido há dez anos. O ministro da Cultura agradeceu e a actriz Lia Gama leu excertos da obra.

"Lavagante", o título de um conto inédito de José Cardoso Pires, foi lançado oficialmente ao fim da tarde de quarta-feira, na Biblioteca Nacional (BNP), em Lisboa. Simultaneamente, a família e a direcção da BNP assinaram um protocolo de doação do espólio do escritor. Para já, das cinco versões daquele conto (três manuscritas e duas dactilografadas), e, em Outubro, dos demais papéis daquele que é, reconhecidamente, um dos maiores escritores de língua portuguesa da segunda metade do Século XX.

Jorge Couto, o presidente da BNP, agradeceu à família "a generosidade", traduzida na entrega "de forma gratuita" da documentação, que irá "enriquecer o património nacional". A sua memória escrita ficará para sempre guardada na Biblioteca, ao lado - como assinalou Jorge Couto - de nomes maiores da literatura portuguesa, como Herculano e Garrett, Cesário Verde e António Nobre, Sá Carneiro, Almada Negreiros e Fernando Pessoa, bem como do "seu antigo professor Rómulo de Carvalho/António Gedeão" e "do amigo de sempre Augusto Abelaira".

Falecido há dez anos, a figura de Cardoso Pires foi recordada numa fotografia de Alfredo Cunha no dia 25 de Abril de 1974: o escritor, impecável de casaco e gravata, em cima de um carro de combate da Escola Prática de Cavalaria comandada pelo capitão Salgueiro Maia, a caminho do Largo do Carmo.

"Bebamos por todos nós!"

Capa do livro "Lavagante"

Capa do livro "Lavagante"

O ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, associou-se à cerimónia. Agradeceu à família - representada pela viuva, as duas filhas e a irmã - o que designou de "intervenção cívica e cultural, que honra a memória do autor". E defendeu a "divulgação digital das obras dos grandes clássicos portugueses, junto de todos os falantes portugueses e sem prejuízo dos direitos de autor". 

O editor do "Lavagante", Nelson de Matos, trouxe consigo duas "surpresas". Uma primeira, foi a voz e a presença da actriz Lia Gama, que leu dois excertos do "Lavagante" - não sem, antes, lembrar a sua participação na peça "Corpo-Delito na Sala de Espelhos", um livro de 1980, levado à cena pelo "Grupo 4". A segunda surpresa foi um texto escrito e lido por Cardoso Pires "exactamente há 25 anos, a 9 de Abril de 1983", na entrega do Grande Prémio do Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, a propósito do livro "Balada da Praia dos Cães". "Um tipo, sempre que começa um livro, nem sonha no que se meteu...", escreveu então Cardoso Pires, que terminava o seu texto, de uma espantosa actualidade, propondo: "Bebamos por todos nós!".

"O novo escritório do Zé"

Coincidência ou não, foi de forma muito semelhante que a filha mais velha do escritor terminou a sua intervenção: "E como nos dias de festa/ cantam as nossas almas/ para o menino José/ uma salva de palmas". A numerosa assistência, que quase enchia o anfiteatro da Biblioteca, associou-se com gosto. Antes, Ana Cardoso Pires descrevera, com enorme ternura e humor, o que foi sendo, ao longo dos anos, "o escritório do Zé". Para classificar a cerimónia que acabara de testemunhar como "o lançamento da primeira pedra do seu novo escritório".

A apresentação do "Lavagante" esteve a cargo da professora Maria Lúcia Lepecki. Crítica literária, citou o ensaísta António José Saraiva, que, "comentando, no café da Faculdade de Letras, a "Balada da Praia dos Cães", me disse um dia: "Isto não é um livro, é um escrínio de jóias!"". Lepecki sublinhou "a parcimónia verbal" do autor e destacou pontos de contacto entre o conto póstumo e romances consagrados como "O Delfim", "O Anjo Ancorado" e "Dinossauro Excelentíssimo". A finalizar, Lúcia Lepecki disse: "Estudo José Cardoso Pires há 42 anos, desde 1966, mas cada vez que o leio não deixo de me comover".