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Bob Marley, uma saga pouco cool

O ídolo do reggae nunca pensou na sua sucessão. O conflito entre os seus músicos, os produtores e a família foi extremamente violento. Ainda há feridas por sarar. Saiba mais na edição de outubro do Courrier Internacional.

O cartaz está bem à vista e é impossível não reparar nele. Às portas de Kingston, capital da Jamaica, numa enorme fotografia publicitária irradia o sorriso de Bob Marley. Em letras garrafais e a cores, o mote do operador telefónico caribenho Digicel: "A Jamaica conta connosco. Um país, uma rede, um amor".

A frase não tem mistério para quem conheça a obra do músico jamaicano. É inspirada na letra de "One love", gravada em 1977: "One love, one heart, let's stay together" ou "Um amor, um coração, fiquemos juntos".

Documentário autorizado

Estamos em abril de 2012. Neste dia, a Digicel apresentava aos habitantes de Kingston, em lançamento mundial, o filme "Marley", realizado pelo escocês Kevin MacDonald. Seria lançado no dia seguinte nos Estados Unidos e no Reino Unido, e depois em França. Este documentário foi o primeiro autorizado pela família Marley, que assinou, em 2011, por intermédio da Fundação Bob Marley, uma parceria exclusiva de dois anos com a Digicel.

Que teria pensado Bob Marley da utilização do seu nome, da sua imagem e da sua arte para fins comerciais? O célebre cantor de reggae, sem dúvida a maior estrela musical nascida num país do Terceiro Mundo, morreu vítima de cancro, em 1981, aos 36 anos.

Como muitas vezes acontece, a sua posteridade é o espelho do que foi a sua vida. Bob Marley deixou de tudo e em abundância: muito génio, muito carisma, muito caos. Uma obra próspera, vários parceiros profissionais, uma vida sentimental atribulada, uma família alargada (nove filhos biológicos nascidos de seis uniões diferentes e dois filhos adotivos)... e nem sequer um papelinho para balizar a sucessão. Nada de testamento, nem sequer oral, apesar de se ter debatido com a doença durante longos meses.

Partilhas agitadas

Resultado: qual bomba-relógio, a repartição da herança foi a luta mais descontroladamente tortuosa da história da música. Com mais de 25 milhões de discos vendidos, dos quais 12 são coletâneas lançadas três anos após a sua morte, sem contar com os múltiplos direitos daí derivados, o património de Bob Marley é considerável.

Até 2010, o cantor fazia parte do top ten dos artistas mortos que faturam mais de seis milhões de dólares (4,6 milhões de euros) por ano, segundo a lista da revista americana "Forbes" (passou depois para o 13.º lugar). O destino e a divisão da herança duraram mais de 15 anos, em julgamentos, dramas sucessivos, diferendos tão violentos que algumas das feridas ainda não estão saradas.

Leia mais na edição número 200 do Courrier Internacional, já nas bancas.