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Bibliotecas municipais são principal incentivo à leitura em Portugal

"Há uma revolução silenciosa a atravessar o país", disse o escritor José Fanha, ontem, no terceiro dia do LeV - Literatura em Viagem, referindo-se ao trabalho das bibliotecas municipais em prol da literatura em Portugal.

Mariana Pinto (www.expresso.pt)

Há uns meses que o romancista e poeta José Fanha anda pelas escolas do país a tentar deixar nos mais novos aquilo que diz ser uma raridade no país actual: o gosto pela leitura. "Portugal é o país mais iletrado da Europa", começou por dizer. José Fanha defendeu que é urgente "tentar mobilizar os empresários, os media e os políticos para fazer com que os portugueses se tornem leitores, pelo menos a um nível médio europeu". Uma tarefa complicada, já que, defendeu, "em geral, as pessoas que dominam os media, tal como os políticos, não lêem".

No cenário pessimista traçado pelo escritor, há um herói-não-consagrado que faz questão de salientar: "As bibliotecas municipais - e agora as redes das bibliotecas escolares - são o principal incentivo à leitura", garante. "Há uma revolução silenciosa a atravessar o país."

O que fazer para que os "miúdos" se interessem pela leitura? "O prazer de ler vem da voz e do afecto que se veicula através da voz" e, por isso, "a oralidade é o melhor caminho para a paixão pela leitura", diz o também o declamador de poesia. "As palavras podem ser sagradas, mas também podem ser profanas. É preciso fazer os miúdos aprender como é divertido brincar com as palavras", completou.

Na mesma mesa de José Fanha - no segundo debate do dia, "Palavra a palavra viajamos" -, onde se notou a ausência do romancista espanhol Ignacio Martínez de Pisón, impedido de chegar à 5ª edição do LeV pela nuvem vulcânica que continua a afectar o trânsito aéreo europeu, estiveram ainda a escritora Filomena Marona Beja e o jornalista brasileiro Arthur Dapieve (que apresentou o seu novo livro "Black Music").

Para o brasileiro, docente de jornalismo na Universidade do Rio de Janeiro, "os escritores viajam nas palavras" e é por isso que a viagem não é necessariamente física: "Pode ser num dicionário, num livro, na nossa casa", disse Arthur Dapieve. E um mesmo livro pode ser uma viagem diferente para leitores/ escritores distintos, porque "os escritores encaram palavras iguais de maneiras diferentes". A importância da palavra e da literatura é a coisa mais fácil de perceber, acredita: basta lembrar que "a primeira coisa que os governos autoritários tendem a fazer é queimar livros e impedir os escritores de escrever".

O melhor das viagens são as pessoas

O mote não podia ser mais indicado: afinal, viajar prolonga ou não a vida? Na primeira mesa do terceiro dia do LeV, que ficou reduzida pela ausência do israelita Alon Hilu (o seu último livro, "A Casa Dajani", venceu o prestigiado prémio Sapir, em 2009), também retido pela nuvem vulcânica, mas contou com a presença de José Rentes de Carvalho, Alexandra Lucas Coelho e Mónica Marques, chegou-se pelo menos a um consenso: O melhor das viagens são as pessoas.

Num painel heterogéneo - unia-os o facto de todos serem jornalistas, separava-os as histórias que traziam para contar - falou-se de viagens, as físicas, e das viagens feitas pela leitura, porque é por essas, defendeu o escritor José Rentes de Carvalho, que verdadeiramente se viaja.

"A viagem é boa no sonho, na leitura e na imaginação", afirmou Rentes de Carvalho. O português, que saiu do país por razões políticas e vive actualmente em Amesterdão, começou por garantir que não gosta de viajar ("viajo porque sou obrigado a isso", afirmou), mas acabou a admitir: "Viajar prolonga a vida porque a pessoa conhecesse a si própria e deixa de ser um ser cinzento".

Alexandra Lucas Coelho não tem dúvidas: "O que me tem prolongado a vida é viajar", contou a premiada jornalista do Público, que tem viajado pelo Médio Oriente desde 2001 ("Ser jornalista mulher e estrangeira no Afeganistão é uma vantagem, por incrível que vos possa parecer", garantiu durante a conferência) e que viveu em Jerusalém, onde trabalhou como repórter, durante seis meses. A jornalista do jornal i, Mónica Marques, vai avisando: "Viajar não prolonga a vida, mas é como se prolongasse. Viajar é um faz de conta em que tudo é possível".

A importância das pessoas neste processo? Alexandra Lucas Coelho explica: "Foram as pessoas que me fizeram viajar e vencer os meus medos". "Encontrei muita gente chata, estúpida e cruel, mas as pessoas interessantes que conheci superaram isso", acrescentou Rentes de Carvalho.

O LeV encerra hoje, com os temas "A alegria do homem está em viajar", às 15 horas, e "Toda a realidade é um desejo de viagem", às 17h30.