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Bento XVI: "políticos não devem remeter religião para a esfera privada"

No segundo dia da sua primeira visita de Estado à Alemanha, o Papa Bento XVI apelou aos políticos para não remeterem a religião para a esfera privada, encontrou-se com líderes das comunidades islâmicas e homenageou Lutero.

Maria Luiza Rolim (www.expresso.pt)

Bento XVI já está há dois dias na Alemanha. Durante um encontro com líderes islâmicos, em Berlim, o Papa pediu hoje aos políticos alemães que não remetam a religião para a esfera privada, e "reconheçam a dimensão pública da religião".

"Uma sociedade pluralista não pode subsistir, a longo prazo, sem consenso em torno dos seus valores éticos fundamentais", sublinhou Bento XVI, elogiando o "clima de respeito crescente" na Alemanha entre a igreja católica e as comunidades islâmicas.

Na opinião do Papa, cristãos e muçulmanos "partindo da sua fé, podem dar um importante testemunho comum, em muitos domínios da vida quotidiana, no que respeita, por exemplo, ao valor atribuído ao casamento e à família, à proteção da vida em todas as suas fases ou à promoção da paz e da justiça social".

Bento XVI exortou ainda cristãos e muçulmanos a conhecerem-se melhor, para se entenderem melhor.

Após o encontro com representantes das comunidades islâmicas na Alemanha, o Papa deixou Berlim hoje de manhã, partindo de avião para Erfurt, onde prosseguirá a visita oficial de quatro dias ao seu país natal.

Homenagem a Lutero

Na capital da Turíngia, Bento XVI reuniu-se no Convento dos Agostinhos, primeira oficina do monge reformador Martinho Lutero, com representantes da igreja protestante, que tem sensivelmente o mesmo número de fiéis do que a igreja católica na Alemanha, cerca de 25 milhões de pessoas.

Trata-se de uma das etapas mais significativas da visita do Papa, que se iniciou na quinta-feira, em Berlim, com um discurso no parlamento, onde apelou aos políticos para distinguirem melhor a justiça da injustiça.

"O que não dava paz [a Lutero] era a questão de Deus, que foi a paixão profunda e a motivação da sua vida e de todo o seu percurso (...) O pensamento de Lutero, toda a sua espiritualidade está completamente centrada em Cristo", declarou o papa, num discurso pronunciado à porta fechada no convento dos Agostinhos, onde o pensador da Reforma viveu seis anos.

Cerca de 500 anos depois do nascimento do protestantismo, o papa Bento XVI definiu Lutero (1483-1546) como um cristão apaixonado, pedindo a luteranos e católicos que procurem aquilo que têm em comum num mundo cada vez mais secular.

Durante um encontro com representantes da Igreja evangélica alemã num antigo convento agostiniano em Erfurt, onde Lutero foi ordenado padre, o papa elogiou pela primeira vez a paixão do teólogo na origem de um dos mais importantes cismas da Igreja católica na Europa.

Bento XVI aplaudido no parlamento

Ontem, Bento XVI foi  o primeiro papa a discursar no Bundestag, e a sua intervenção no parlamento alemão versou sobre a unidade da Europa. Como era esperado, foi talvez o ponto mais alto dessa visita oficial.

Num discurso filosófico que surpreendeu o Bundestag, mas foi recebido no final com muitos aplausos dos deputados, o Papa afirmou hoje que o critério decisivo para os políticos "não pode ser o sucesso, nem os ganhos materiais, mas sim a a vontade de servir a justiça, e de recusar o predomínio da injustiça".

Outro evento importante da visita foi, na noite passada, a celebração da Eucaristia no Estádio Olímpico de Berlim, perante 70 mil pessoas,  em que pediu aos crentes para não abandonarem a igreja, mesmo que estejam desiludidos com ela.

A estadia do Papa em Berlim foi acompanha por alguns protestos, que culminaram numa manifestação de cerca de 10 mil pessoas no centro da cidade, contra a visita oficial de Bento XVI e a doutrina sexual do Vaticano.

A visita oficial do Papa à Alemanha inclui passagens pela capital, Berlim , por Erfurt, bastião do catolicismo no leste do país, e por Freiburgo, sede da conferência episcopal germânica.

A televisão pública ZDF, que cita um membro da cúria que acompanha o bispo de Roma, revelou entretanto que Bento XVI vai encontrar-se com vítimas de abusos sexuais em instituições da igreja católica na Alemanha - mas longe das câmaras e dos microfones da imprensa.