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Ausências internacionais marcam início de encontro literário em Matosinhos

Os efeitos da nuvem vulcânica que está a congestionar o tráfego aéreo europeu chegaram a Matosinhos: A 5ª edição do LeV - Literatura em Viagem, arrancou com as ausências dos convidados internacionais Robert Fisk, Mimmo Cándito, Hubert Haddad e Giuliano da Empoli.

Mariana Pinto (www.expresso.pt)

Lançamento da revista "Itinerâncias", inauguração da exposição fotográfica "A última fronteira", de Gonçalo Rosa da Silva, lançamento de livros e dois debates: Foi assim o primeiro dia da 5ª edição do LeV, um dos mais importantes encontros literários do país, que contou com um auditório cheio, em Matosinhos, apesar das ausências dos nomes de peso.

No debate inaugural - "Literatura e Guerra" - a pergunta que se impunha surgiu pela voz de Carlos Vale Ferraz: Afinal, porquê juntar literatura, viagem e guerra no mesmo saco? "A ligação entre a literatura, a viagem e a guerra é a mais lógica do mundo", responde o próprio. Para o escritor "a guerra é o ponto inicial da viagem, a grande matéria-prima - além do amor - para a literatura".

Os grandes livros sobre a guerra "virão de uma geração posterior", acredita Vale Ferraz, para quem a ausência de uma "literatura colonial pujante" tem uma razão simples: "Porque Portugal não foi capaz de admitir o seu suicídio na descolonização". O que a guerra nos pode ensinar? "Mostra-nos que aprendemos muito pouco com as experiências passadas", diz Vale Ferraz. É que, salienta, "nas guerras só há vencidos".

A colmatar a falha dos três nomes internacionais no painel "Literatura e Guerra", surgiu José Fanha - poeta, arquitecto e guionista-, que nunca esteve na guerra: "O que sei da guerra é o que leio e ouço, tal como a maioria das pessoas", admitiu. O poeta deixou ainda uma nota ao "raro" jornalismo do género que se faz: "É preciso ter muito amor à verdade e à informação para fazer este tipo de jornalismo.

E no relato directo de quem viu várias guerras com carteira de jornalista no bolso, esteve Cândida Pinto. A repórter da SIC falou do "ser humano sem capas e sem máscaras", que só em situações de limite é possível encontrar: "Encontramos o melhor e o pior, a bondade absoluta e as coisas mais terríveis que possam imaginar". No difícil trabalho de um jornalista de guerra ("vivemos como se os nosso pés não tocassem no chão, porque tudo está alterado", conta), uma coisa é imprescindível: A bagagem histórica. É como Robert Fisk costuma dizer, lembra a repórter da SIC, "o jornalista quando parte para uma zona de conflito deve levar muitos livros de História".   

A história depende de quem a vê

"O historiador não dá ao leitor o passado, dá-lhe uma visão, uma construção". As palavras são do escritor e historiador João Pedro Marques, que acredita que não é possível escrever uma história consensual: "Não é possível juntar dois pontos de vista, apesar dos políticos andarem mortos por fazer isso", realçou. "A arte de viajar do romancista histórico é uma tentativa de entrecruzar a imaginação com factos verídicos", acrescentou.

Falava-se já no segundo painel do dia -"As viagens são os viajantes" -, que contou também com o escritor Nuno Silveira Ramos. Com uma vida feita entre três continentes - Europa, África e Ásia -, o escritor diz que continua sem saber a que terra pertence ("Sou provavelmente um cidadão do mundo") e tem uma teoria: "Quando viajo estou a inventar países, a Angola que eu conheço não é a mesma que os outros conhecem". O único toque internacional do dia foi dado por Lourenço Mutarelli: O brasileiro, que admitiu gostar de viajar, "mas nem tanto", contou que a primeira vez que saiu do Brasil foi para viajar para Lisboa, o destino que acabaria por se transformar no preferido do autor de banda-desenhada. "Viajei para muitos locais, mas só Portugal me marcou".

O segundo dia do LeV contará com dois debates: "Percebo-me viajando", às 15 horas, e "O Sonho de África", às 17h30.