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Assim como nascem morrem

Dinossauros Desapareceram com um bang, mas chegaram depois do caos.

Exclusivo Expresso/The Economist

As revoluções têm consequências imprevisíveis. Raramente se percebe no começo quem acabará por ficar no poder. Trata-se de uma verdade tanto para a política como para a biologia. Apesar disso, tal como nas revoluções políticas, as biológicas seguem muitas vezes um rumo previsível. A velha ordem é destruída. Há um longo período de confusão. Depois emerge um novo ecossistema, que se parece surpreendentemente com o velho, mas com actores diferentes.

Este ciclo ocorreu cinco vezes na história da vida moderna. A ocasião mais célebre foi há 65 milhões de anos, quando os dinossauros foram eliminados e os mamíferos emergiram vitoriosos de entre os escombros. Uma maior extinção em massa, no final do período Permiano, há 251 milhões de anos, matou 70% dos vertebrados terrestres do mundo (e 96% dos animais marinhos), dando lugar à era dos répteis.

Contudo, qual seria exactamente o tipo de réptil a levar a palma só se decidiria muito mais tarde - há 201,4 milhões de anos, para ser mais preciso. Estava-se perto do final do período Triássico. Nessa altura, as fileiras de aetossauros, fitossauros, shuvossauros e muitos outros parentes dos crocodilos diminuíram subitamente e um grupo previamente obscuro tomou a dianteira. O resultado, uma vez que a selecção natural tinha feito o seu trabalho ao longo de milhões de anos, foi o elenco hoje familiar de alossauros, diplodocos, tricerátopos e tiranossauros.

Curso dos acontecimentos

Os dinossauros morreram, como toda a gente sabe, devido a uma colisão de um asteróide com a Terra. O período Permiano terminou devido a gigantescas erupções vulcânicas. Mas o que aconteceu exactamente no final do Triássico tem sido objecto de grande debate. Um estudo acabado de publicar nos "Proceedings of the National Academy of Sciences", por Jessica Whiteside, da Brown University, em Rhode Island, e pelos seus colegas, explica-o bastante bem. Foi o caos geológico que criou o Oceano Atlântico Norte.

A dra. Whiteside utilizou fósseis prensados entre camadas de lava de algumas das primeiras erupções que acompanharam a grande separação. Especificamente, identificou dois locais no que é hoje o leste da América do Norte, onde uma série de lagos gigantescos se formou nas camadas de lava arrefecida e onde matéria vegetal se acumulou no fundo dos lagos. Recorrendo a análises químicas detalhadas de moléculas de cera extraídas das plantas fósseis, examinou os isótopos de carbono que elas continham.

Os átomos de carbono não radioactivo têm duas formas ou massas diferentes: 12C e a forma mais pesada (e muito mais rara) 13C. A proporção varia na atmosfera, dependendo de onde provêem os gases ricos em carbono, principalmente o dióxido de carbono e o metano. A dra. Whiteside descobriu que a proporção oscilava como um marinheiro bêbado à medida que os continentes se separavam e que a lava começava a espalhar-se. Primeiro, o nível de 13C desceu bruscamente. Em seguida, disparou novamente, muito longe da recente média histórica, antes de se fixar.

Crucialmente, o período de descida brusca coincide com um fenómeno chamado pico de fetos do Triássico superior. Isto marca precisamente - com uma margem de alguns milhares de anos - o ponto de extinção em massa na Terra. O que se acredita que aconteceu é que algo matou todas as florestas e com elas os animais que delas dependiam. Libertados da concorrência para obter luz (porque a sombra das árvores desapareceu), os fetos floresceram (os seus esporos são omnipresentes nas rochas). Trabalhos prévios sugerem que os oceanos também se tornaram ácidos por esta altura. Os moluscos e crustáceos, cuja concha é rica em carbonato de cálcio e se dissolve em ácido, tornaram-se raros subitamente.

Juntando tudo, o curso provável dos acontecimentos foi o seguinte: o vulcanismo inicial quando a América do Norte se separou da Europa libertou dióxido de carbono vindo das profundezas da Terra. Isso produziu um efeito de estufa que, por sua vez, derreteu estruturas marinhas conhecidas como clatratos de metano, que aprisionam o gás no gelo. Isso causou uma libertação maciça de metano rico em 12C para a atmosfera, explicando a queda inicial de concentrações de 13C. O metano, que é um gás com efeito de estufa muito mais potente que o dióxido de carbono, agravou a situação, enquanto o dióxido de carbono acidificava os mares, matando a maioria dos moluscos e crustáceos e fertilizando a fotossíntese do plâncton. A subsequente abundância de plâncton sugou o 12C e a proporção entre os isótopos de carbono (átomos de carbono com massa diferente) virou na direcção oposta.

O efeito de estufa e as chuvas ácidas também condenaram as florestas e muitos dos répteis. Só depois das coisas acalmarem é que os sobreviventes se puderam reagrupar. Surgiram novas espécies de árvores. As florestas voltaram a crescer. E um grupo de lagartos até então não muito terríveis começou a sua longa caminhada.

 

© 2010 The Economist Newspaper Limited. Todos os direitos reservados. Em "The Economist", traduzido por Aida Macedo para Impresa Publishing, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado em www.economist.com