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As "contas furadas" de uma licenciada em Matemática

Ana Maria Ferreira, agência Lusa

Helena Cabral fez um curso superior para ser professora de Matemática, mas as contas saíram-lhe furadas: divide o dia-a-dia entre a recepção de um ginásio e a caixa de um supermercado.

Helena, de 26 anos, acabou o curso de professora de Matemática e Ciências da Natureza (1º e 2º ciclos do ensino básico) em Julho de 2005 e, depois de meses em vão à procura de um trabalho compatível com a sua qualificação, decidiu "esquecer" o "canudo".

"Não podia continuar a depender dos meus pais. Fui ao centro de emprego de Viseu e pedi: 'arranjem-me qualquer coisa'", conta à Agência Lusa. Admite que, apesar da "mente aberta" com que acordou nesse dia, as opções que lhe apresentaram a desanimaram: empregada de bar, de talho, de uma loja de roupa ou de um call center e vendedora ao domicílio obrigada a ter carro próprio.

"Perguntei se não havia mesmo mais nada", recorda. Acabou como recepcionista num ginásio em Nelas, posto que ocupou em Dezembro de 2005 e onde se mantém até hoje, trabalhando oito horas por dia, incluindo os sábados. "Disse logo que, se aparecesse alguma coisa na minha área, deixava o emprego. Mas até hoje ainda não apareceu", lamenta.

Ainda que, oficialmente, seja recepcionista, Helena desdobra-se por várias actividades: tira cafés no bar ao lado da recepção, limpa as máquinas e o chão e até substitui os monitores quando é preciso.

Como no ginásio tem horários concentrados numa parte do dia, começou a pensar que ainda tinha tempo para um part-time. Em Outubro passado, voltou à caixa de um supermercado de Nelas onde já tinha trabalho nas férias de Verão. Aí, faz mais quatro horas diárias.

Apesar do dia preenchido, as contas feitas por Helena dão um resultado claro: a soma dos salários dos dois empregos é sensivelmente igual a metade do que ganharia caso tivesse começado a ser professora quando acabou o curso. Nestes anos, nunca deixou de participar nos concursos de professores, mas a falta de tempo de serviço não lhe deixa grandes perspectivas.

O seu dia-a-dia não é, por tudo isto, aquele com que sonhava aos 18 anos, quando pensava que, aos 26, já teria estabilidade para comprar casa, carro e constituir família. Vive com os pais e com uma irmã mais nova que, vendo o seu caso, decidiu ficar-se pelo 12º ano.