Siga-nos

Perfil

Expresso

Atualidade / Arquivo

António Vitorino: "UE está em perigo"

Numa entrevista ao Expresso, o ex-comissário europeu considera que a queda da Grécia pode levar ao colapso do euro e este à desagregação da União Europeia. Votos cruciais começam hoje.

Luísa Meireles (texto) e Jorge Simão (fotos) (www.expresso.pt)

António Vitorino considera que a queda da Grécia pode acarretar o colapso do euro e este à desagregação da União Europeia.

Numa entrevista ao Expresso, o antigo comissário europeu diz que os efeitos de tal acontecimento seriam devastadores para o mercado interno - o verdadeiro coração da União - na medida em que o contágio de um incumprimento grego seria imediato e não apenas para os pequenos países como Portugal e Irlanda.

Em causa estariam logo a Itália e a Espanha que, juntas representam 27% da economia europeia. Com tudo isto, diz António Vitorino, "já estamos a falar de mais de um terço da economia europeia afetado pela pressão dos mercados com base na questão da dívida". Só a banca francesa detem 600 mil milhões de euros dos países sobre-endividados.

António Vitorino também se manifesta contra a via federalista - se bem que considere fundamental discuti-la - e diz que perdeu as ilusões da refundação da União Europeia quando a Europa passou de 15 para 27 membros e se fez o Tratado Constitucional: "O caminho não é por aí".

O "pesado encargo" português

"Desconfio muito das lógicas de excesso de zelo. Tal como na culinária, os ingredientes têm de ser misturados na justa proporção"

"Desconfio muito das lógicas de excesso de zelo. Tal como na culinária, os ingredientes têm de ser misturados na justa proporção"

Mas António Vitorino defende que existem soluções para a atual crise e que elas já estão aí: os programas de assistência financeira aos Estados e a reformulação do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF). O problema, considera, é o ritmo da política, que está desadaptado ao dos mercados, neste tempo de globalização financeira.

Quanto a Portugal, o político socialista, que se afirma retirado da política ativa, diz que tem um "pesado caderno de encargos" a cumprir, mas mostra-se desconfiado em relação ao que chama "as lógicas de excesso de zelo".

"É fundamental por em ordem as finanças públicas (...) mas se não se acrescentar a componente de crescimento económico, não há saída". Segundo António Vitorino, este ano a Europa (incluindo a Alemanha) irá entrar em recessão.

Votos cruciais

A entrevista de António Vitorino surge numa altura em que uma série de países vão votar nos seus Parlamentos a reformulação do FEEF, que lhe permitirá, nomeadamente, a compra de títulos da dívida dos países em situação difícil no mercado secundário.

Sem o acordo de todos os 17 Estados-membros da zona euro, essa reformulação - peça chave das decisões tomadas a 21 de julho para resolver o problema da dívida soberana - não pode entrar em vigor.

Dos 17 Estados oito já votaram, mas faltam alguns considerados cruciais, na medida em que têm colocado muitos problemas: a Finlândia, que vota hoje, e a Alemanha, amanhã, onde o voto está a ser objeto de dura luta política dentro do próprio partido da chanceler Angela Merkel.

O último a votar será a Eslováquia, no 11 de outubro, cuja primeira-ministra encarava a possibilidade de pôr a votos igualmente uma moção de confiança do seu Governo de coligação. A Eslovénia, a Estónia e a Áustria também têm planeado votações nos próximos dias.

No fim de semana foram divulgados planos de que estaria na forja um grande aumento da capacidade do FEEF (para dois biliões de euros dos atuais 440 mil milhões).

Clique para ler a versão integral da entrevista a António Vitorino

A União Europeia está em perigo