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Afinal, o tamanho importa

Elas admitem: o tamanho importa. Nenhuma mulher quer um rastilho curto mas demasiada dinamite pode detonar qualquer prazer. (Veja link no fim do texto para infografia em formato PDF)

Nelson Marques (texto) e Sofia Miguel Rosa (infografia)

O tamanho importa? A acreditar na propaganda "Enlarge your penis" (aumente o seu pénis) que inunda os "e-mails" dos machos (e fêmeas) deste mundo parece que a coisa importa sim. Será talvez culpa da pornografia, com o culto dos falos infatigáveis "à la Rocco Siffredi", ou de uma sexualidade contemporânea demasiado centrada na erecção. Será talvez uma questão de narcisismo, como salientou ao "Expresso" o sexólogo Júlio Machado Vaz.

Ou então a expressão das inseguranças dos homens de hoje, pressionados pela emancipação sexual da mulher, que reivindica cada vez mais o seu direito ao prazer. Mas será a preocupação realmente mais masculina que feminina? Será o "pequenino mas trabalhador" que preenche o imaginário erótico feminino? Voz às mulheres então. "Elas podem dizer que o tamanho não importa e que a habilidade é mais importante, mas os homens não se devem fiar. A grande maioria prefere-os grandes", assegura Vita Antunes, de 41 anos.

A administradora de um sítio de sexo diz gostar deles "nem demasiado grandes, nem demasiado pequenos", embora os "16 a 18 centímetros" que define como tamanho ideal estejam bem acima da média da população portuguesa. "Já tive uma experiência com um XXL que não consegui acabar, porque foi doloroso e não retirei prazer do sexo. Mas também já tive algumas com tamanhos abaixo da média e foi preciso inovar para chegar ao orgasmo", conta.

Cristina, de 32 anos, conhece a decepção de descobrir um rastilho curto num homem que parecia dinamite, mas assegura que, depois de "intimar com ele", até ficou "fã". Esta enfermeira espanhola radicada em Portugal há mais de sete anos sublinha que um "M bom" é sempre melhor que um "L sem graça", mas admite que se os dois forem "bons profissionais" o L "é sempre bem-vindo". "Quem disser que não, é capaz de ser uma mulher pouco sincera... ou pouco experiente."

Três anos mais nova que Cristina, a gestora de conta Filipa Sousa revela a "sorte" de ter encontrado sempre "tamanhos considerados normais". "Gosto de o ver logo e não ter que andar à procura dele", sorri. "O tamanho importa em tudo: no entusiasmo inicial, na penetração e no uso que se dá depois da penetração."

Laura, 38 anos, discorda. "O saber dar prazer, e muito menos a paixão, não dependem de medidas", afirma, admitindo contudo que, para elas, o diâmetro é mais importante que o comprimento. "O importante para as mulheres é sentirem-se preenchidas. Um pénis muito grande magoa, não dá prazer, ainda mais se o dono for desajeitado. E não deve ser fácil irrigar toda aquela zona e manter a erecção."

Nuno Monteiro Pereira, professor de sexologia e director da Clínica do Homem e da Mulher, confirma a suspeita. "Já tive que fazer cirurgias de redução de tamanho porque o pénis é de tal forma grande que não há pressão sanguínea suficiente para o preencher", revela. São as excepções à regra. A maioria dos pacientes que procuram o apoio de um especialista para corrigir o tamanho do seu pénis querem aumentá-lo. Muitos têm pénis normais ou mesmo grandes, o que pode esconder um transtorno conhecido como dismorfofobia, ou síndrome da distorção da imagem, que consiste numa preocupação exagerada com algum defeito na aparência, geralmente inexistente. "É um problema de irrealismo. O homem está profundamente convencido de que o seu pénis é pequeno. Estes casos devem ser encaminhados para apoio psiquiátrico", explica o clínico.

A culpa, sublinha, é sobretudo da indústria pornográfica, "que tem induzido uma imagem completamente irrealista do tamanho do pénis". Depois há a inevitável comparação com os outros homens, um fenómeno popularmente conhecido como "síndrome do balneário", que o sexólogo Júlio Machado Vaz define como uma "competição macha narcísica", onde o tamanho do pénis "simboliza a vitória na comparação das masculinidades".

O terapeuta revela ser "muito comum" os seus pacientes, sobretudo os mais jovens, questionarem-se sobre o tamanho do seu sexo, uma angústia "quase nunca justificada". Afinal, a imensa maioria dos homens está dento da média e, apesar de tudo, o tamanho é sempre relativo.

Assim como o comprimento e o diâmetro do pénis não são o mesmo em todos os homens, também o diâmetro e a profundidade da vagina variam de mulher para mulher. Resume-se tudo, no fundo, a uma questão de encaixe, físico mas sobretudo emocional.

Tamanho equivale a potência Mito. Ao contrário do que parecem acreditar muitos homens (e, talvez, algumas mulheres), um pénis grande não é garantia de orgasmos inesquecíveis. Um falo sobredimensionado pode até tornar mais difícil manter uma erecção firme e prolongada e, sobretudo, tornar a relação pouco cómoda e algo dolorosa para a mulher.

Os homens de raça negra são mais dotados Verdade. O livro O Pénis - da Masculinidade ao Órgão Masculino, do andrologista Nuno Monteiro Pereira, confirma o mito popular segundo o qual os negros são mais "dotados". De acordo com o livro, em Portugal os homens de raça negra têm, em média, um pénis de 11,90 centímetros em flacidez e 17,64 centímetros em estiramento. A média dos portugueses é de 9,85 centímetros em flacidez e 15,82 em estiramento.

Homens mais baixos possuem pénis maiores Mito. Nuno Monteiro Pereira, que estudou a dimensão peniana do homem português, assegura que os mais baixos têm geralmente pénis mais pequenos que os homens mais altos.

Homens de mãos grandes são mais dotados Mito. Não existe qualquer evidência científica da relação entre a dimensão do pénis e o tamanho das mãos, dos pés, do nariz ou de qualquer outra parte do corpo.

O terapeuta revela ser muito comum os seua pacientes, sobretudos os mais jovens, questionarem-se sobre o tamanho do seu sexo, uma angústia quase nada justificada

O terapeuta revela ser muito comum os seua pacientes, sobretudos os mais jovens, questionarem-se sobre o tamanho do seu sexo, uma angústia quase nada justificada

'As mulheres valorizam mais a técnica e imaginação'

Porque é que a generalidade dos homens, mesmo os que estão acima da média, gostariam de ter um pénis maior? Devido a uma competição macha narcísica, bem mais antiga do que o cinema. O tamanho do pénis simboliza a vitória na comparação de masculinidades.

Estará a sexualidade moderna demasiado centrada no pénis? Sempre esteve, não é uma invenção moderna. A sexualidade foi sempre demasiado falocêntrica e falocrática.

É comum os seus pacientes questionarem-se sobre o tamanho do sexo deles? Se sim, eram justificadas essas preocupações? É muito comum, sobretudo entre os mais novos. Quase nunca é justificado.

Da sua experiência, são realmente honestas as mulheres que dizem que o tamanho não interessa? Um sexo bem proporcionado não fará também parte do imaginário erótico feminino? Há de tudo. Não é raro ouvir queixas de mulheres que por terem vaginas pequenas suportam mal o tamanho do pénis (grande) do parceiro. Algumas têm uma visão "masculina" da questão e valorizam o tamanho, mas, em geral, as mulheres valorizam mais a técnica e imaginação sexuais do parceiro do que as dimensões do seu pénis.

A verdade é que elas reivindicam hoje o direito ao prazer e isso, para a maioria dos homens, deve constituir um factor de pressão adicional. A angústia com o tamanho não terá origem na angústia com o desempenho sexual? A pressão de desempenho provocada pela maior exigência, seja ela real ou imaginada, por parte das mulheres é, sem dúvida, um dos factores mais comuns a provocar angústia de desempenho nos homens.

Texto publicado na Única da edição do Expresso de 11 de Outubro de 2008