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Achados arqueológicos nos Açores são "sensacionalismo à Indiana Jones"

Sítios arqueológicos no Monte Brasil, em Angra do Heroísmo

Lusa

Centro de Estudos de Arqueologia Moderna e Contemporânea refuta achados de monumentos cartagineses com milhares de anos em Angra do Heroísmo, nos Açores, que foram anunciados por arqueológos esta semana.

O conselho científico do Centro de Estudos de Arqueologia Moderna e Contemporânea (CEAM) afirmou hoje que as conclusões sobre achados de monumentos com milhares de anos nos Açores são "extemporâneas" e constituem "sensacionalismo à Indiana Jones".

Este organismo esteve reunido hoje no Funchal e, no texto das conclusões a que a agência Lusa teve acesso, declara que as informações avançadas pela Associação Portuguesa de Investigação Arqueológica sobre alegados achados de monumentos subterrâneos e templos do tipo hipogeu com mais de 2.000 anos na região açoriana são um "erro e sensacionalismo à Indiana Jones".

No comunicado, o CEAM declara que "desde 2008 tem dedicado parte da sua atividade arqueológica nos Açores, pondo em prática o projeto Estudo da Arqueologia Moderna na Região Autónoma dos Açores (EAMA), com o apoio de meios universitários portugueses e organismos governamentais e municipais".

"Notícias veiculadas por Nuno Ribeiro, da Associação Portuguesa de Investigação Arqueológica, carecem de validação científica"

O conselho científico considera que "as notícias veiculadas por Nuno Ribeiro, da Associação Portuguesa de Investigação Arqueológica, carecem de validação científica", pelo que diz serem "extemporâneas e desprovidas de um rigoroso aprofundamento disciplinar e interdisciplinar, nomeadamente na vertente da antropologia e dos estudos etnográficos que citam, desde os finais do século XIX, a utilização desse tipo de estruturas rochosas para fins agropecuários".

O CEAM declara também que este "tipo de estruturas construídas em pedra são tipologicamente semelhantes a muitas outras existentes no arquipélago da Madeira, que têm vindo a ser estudadas e sujeitas à apreciação da opinião pública através de artigos em revistas do sector, intervenções em encontros especializados e referências na comunicação social".

"Poderão remontar, quando muito, à época do povoamento no século XV"

Por isso, refere, é certo que a sua origem e datação "poderão remontar, quando muito, à época do povoamento no século XV".

O CEAM argumenta que "idêntica justificação se poderá entender para as estruturas açorianas, numa vertente da arquitetura 'humanizável' da paisagem insular e pela crescente necessidade de utilização dos recursos naturais na atividade humana".

Além disso, sustenta que as conclusões do arqueólogo Nuno Ribeiro, "além de precipitadas e tomadas em "visita de recreio" aos Açores, são meramente sensacionalistas" e "descredibilizam a classe arqueológica, que se deve mover com dados fundamentados e com rigor na interpretação e na análise do passado e suscitam afirmações voláteis sem estudos prévios rigorosos e interdisciplinarmente credíveis".

Arqueólogos tinham dito que encontraram templos dedicados a deusa cartaginesa

Na passada sexta-feira, arqueólogos da Associação Portuguesa de Investigação Arqueológica afirmaram ter localizado no Monte Brasil, em Angra do Heroísmo, novos sítios arqueológicos, alguns dos quais poderão ser templos dedicados a Tanit, deusa cartaginesa, provavelmente do século IV a.C.

Segundo Nuno Ribeiro e Anabela Joaquinito, foi descoberto "um conjunto significativo de mais de cinco monumentos do tipo hipogeu (túmulos escavados nas rochas) e de pelo menos três 'santuários' proto-históricos, escavados na rocha".

Um dos monumentos localiza-se no 'Monte do Facho' e possui estruturas tipo pias, associadas a canais provavelmente para libações, 'cadeiras' escavadas na rocha, um tanque cerimonial coberto pela vegetação e dezenas de buracos de poste, que confirmam a existência de coberturas leves destes espaços.

O segundo e o terceiro santuários localizam-se na área do Forte de São Diogo e foram descobertos no passado mês de junho durante uma viagem de recreio.

Descobertas serão apresentadas em congressos mundiais

A APIA irá apresentar publicamente estas descobertas em congressos mundiais, que decorrem em Évora em setembro deste ano (SEAC 2011) e em Florença (Itália) no próximo ano, no Simpósio de Arqueologia do Mediterrâneo.

De acordo com Nuno Ribeiro, com estas descobertas "a data do povoamento dos Açores pode não ser a que a História refere mas outra dependente de estudos arqueológicos a estruturas e objetos existentes no arquipélago".