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A minha verdade

Lima está com Cavaco desde 85. Após a polémica deixou a assessoria de imprensa e mantém-se em Belém

Rui Ochôa

O assessor de Cavaco Silva diz que o assunto nunca devia ter passado de um "episódio pícaro". Fernando Lima fala pela primeira vez sobre o caso das escutas, que incendiou o Verão.

Terminou o ano de 2009 e vários meses se passaram desde que, em Agosto, o torpor de veraneio foi sacudido por uma intriga política que pretendeu envolver o Presidente da República no palco da luta eleitoral que então decorria. Essa intriga não teve escrúpulo de tentar sacrificar o meu direito ao bom nome profissional, construído durante uma vida, e que me cabe defender e honrar. Agora que a poeira assentou, não queria deixar que o novo ano avançasse sem exercer o meu direito ao esclarecimento, tanto mais que a manifesta infâmia e a grosseira violação da ética profissional dos actores de tal enredo não foi suficiente para desmotivar, mais que não fosse por vergonha, a recorrente invocação dessa intriga sempre que a conveniência política assim o determina. Essa insistência tem como objectivo, aliás coerente com os propósitos que a motivaram, fazer passar à posteridade como verdadeiro o que não passou de uma teia bem urdida pelo fértil imaginário dos criadores de "factos políticos". Aqui fica, pois, a minha verdade, para que conste e pese na consciência dos que deram eco insensato ou maldoso ao que não devia ter sido mais que um episódio pícaro da época estival: o que os gurus do marketing político baptizaram de "caso das escutas". Estarão lembrados de que, por alturas do Verão do ano que agora findou, começaram a correr com insistência insinuações de que haveria assessores do Presidente a colaborar na elaboração do programa eleitoral do PSD. Apesar de desmentida pública e categoricamente por um dos vice-presidentes e pela líder do PSD, alguns deputados do Partido Socialista insistiam publicamente na existência dessa colaboração. Tal estridência provocou permanentes tentativas de confirmação por parte dos jornalistas junto de elementos da Casa Civil da Presidência da República, procurando avidamente obter um comentário que alimentasse a falsa acusação. Um gesto de impaciência levou a que a resposta acabasse por ser dada sob a forma de uma pergunta: "Se não há registo de participação pública, como é que sabem o que faz cada um na sua vida privada? Andam a vigiar os assessores?"

Fernando Lima é a sombra de Cavaco Silva

Fernando Lima é a sombra de Cavaco Silva

João Carlos Santos

Tanto bastou para dar origem a uma capa inesperada do jornal "Público", que transformou uma resposta irada, ditada pelo absurdo das questões, em "suspeitas gravíssimas" veiculadas por "fonte oficial". De nada serviu que a referida capa viesse com as interrogações, o que bastaria para ilustrar os leitores de boa-fé quanto ao tom e sentido da resposta, não fosse o coro afinado que, de imediato, comentou a "notícia", dando-lhe o clamor de um escândalo. Estava obtido o pretexto para fazer explodir a armadilha e ela funcionou. Decorreram assim vários dias em que políticos, comentadores de ocasião e jornalistas se multiplicaram em comentários e mais pseudo-notícias sobre a "gravidade" das suspeitas, procurando em vão que o Presidente da República, na altura em férias e ausente de Lisboa, viesse a terreiro alimentar o delírio e, desse modo, cunhá-lo com a chancela de tema a merecer atenção ao mais alto nível institucional e político. Bastaria uma palavra do Presidente da República para que uma polémica sem qualquer suporte factual passasse a ter uma existência confirmada mantendo-se a sua origem na bruma, como pretendiam os arquitectos da intriga. Não a conseguiram. Ora, o tempo noticioso é curto e mesmo o mais descarado facto inventado tem o seu tempo de vida. Os interessados em trazer o Presidente da República para a liça política viam que o assunto perdia o brilho e a dinâmica política que proporcionava e lhes convinha, e decidiram que era preciso alimentá-lo, por quaisquer meios, sem olhar a princípios. Foi então que surgiu num diário concorrente do "Público" a publicação de um estranho e-mail - resta saber por que caminho terá ele lá chegado... -, tão estranho e despropositado que não deveria ter suscitado mais do que um impulso de rejeição enojada por parte de todos os profissionais de jornalismo e actores políticos. O suposto e-mail era datado de há um ano e meio atrás, ou seja de Abril de 2008, e assinava-o um jornalista do "Público", que se dirigia a outro jornalista do "Público", numa correspondência de rotina profissional privada. Aí se relatava, em tom de cordial confiança próprio entre colegas da mesma casa, uma suposta conversa pessoal que o autor teria tido comigo e cujo tema teria sido o comportamento de um assessor do primeiro-ministro durante uma visita presidencial à Madeira, em Abril de 2008. Dessa conversa, que o autor do e-mail sublinhava como secreta e confidencial, teriam surgido indicações de haver matéria suficientemente interessante para que o colega, na Madeira, procedesse a averiguações, destinadas a confirmar factos que poderiam vir a ser noticiados pelo jornal "Público". Nem na altura, nem durante o ano e meio que se seguiu, nem nunca mais, houve qualquer desenvolvimento de notícias decorrentes da suposta conversa referida no e-mail.
Lima e Cavaco à conversa

Lima e Cavaco à conversa

José Ventura

No entanto, o diário concorrente dá honras de capa à publicação do e-mail - insisto, trocado entre dois jornalistas do "Público" um ano e meio antes, ao qual sou, como é óbvio, absolutamente alheio e sem correspondência com a realidade. Ao longo da minha actividade profissional, nunca revelei a ocorrência ou o teor de conversas com jornalistas e, por isso, não se espere de mim que alguma vez o venha a fazer. Do mesmo modo, e para que não restem dúvidas, nas minhas conversas com jornalistas jamais invoquei o nome do Presidente da República sobre algo que não decorresse de intervenções públicas. A "notícia" do e-mail tinha, portanto, como único e exclusivo conteúdo relevante a divulgação do meu nome como sendo o do interlocutor citado, concluindo daí "a prova" de que "a fonte de Belém" que teria dado origem à suspeita das escutas de Agosto só podia ser a mesma pessoa que, em 2008, teria procurado o jornalista do "Público", "suspeitando" de um assessor do primeiro-ministro. Quem suspeita de um, suspeita de todos, não parece evidente? E assim se deu um sentido supostamente lógico ao raciocínio que se queria induzir e que estava a cair em descrédito. Ou seja, valeu tudo. A "notícia", publicitada em parangonas na capa, foi construída com base numa eventual conversa pessoal obtida pela violação assumida do segredo profissional a que colegas de outro jornal estavam vinculados. A luta política eleitoral estava no seu auge e era preciso desviar as atenções do que podia esclarecer os portugueses ou informá-los sobre a real situação do país. Aquele e-mail gerava a confusão que convinha, impedia que o assunto das escutas morresse e, maravilha das maravilhas, era a "prova clara" de que a Casa Civil do Presidente da República estava na origem maléfica dos boatos que circulavam sobre as suspeitas de existência de escutas. Entendamo-nos. Eu sei que esta trama raia o incrível e que é um daqueles casos em que a realidade ultrapassa a ficção, daí o ser virtualmente impossível pretender que alguém, de boa-fé e com lisura de sentimentos, acredite que tudo isto aconteceu e teve crédito na opinião pública, gerando mesmo quilómetros de artigos de opinião. Sei que de pouco vale a razão de quem tem razão, se a intriga conseguiu crescer, infiltrar-se no espírito dos menos atentos ou menos habituados a estes meandros e produzir os resultados pretendidos por quem se determinou a tecê-la. Mas tenho o direito e o dever de apresentar as coisas tal como aconteceram. Aqui fica a minha verdade, para que a mentira não passe incólume à História.

 

Texto publicado na edição do Expresso de 16 de Janeiro de 2010.