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Abrir as portas da Constituição

O que está em causa não é sim ou não ao Estado Social: é escolher entre salvar o Estado do lastro das suas funções sociais ou salvar a política social da asfixia financeira do Estado.

Vasco Campilho (www.expresso.pt)
9:00 Quarta feira, 21 de julho de 2010

Ontem, foi finalmente divulgado o articulado  proposto pela Comissão que Pedro Passos Coelho encarregou de elaboraro ante-projecto de revisão constitucional que o PSD vai debater hoje nos seus órgãos directivos. O projecto é vasto e toca em muitos pontos de relevo para o debate político. Vasto demais? Talvez, mas nisso está à medida da própria Constituição, que regula excessivas matérias com excessivo detalhe. (Faz algum sentido, por exemplo, termos um artigo na Lei Fundamental sobre meios de produção em abandono ? Evidentemente não, e em boa hora o PSD propõe a sua remoção, naturalmente sem prejuízo da legislação existente nessa matéria se manter em vigor). Mas a verdade é que esta iniciativa coloca na agenda política um debate essencial acerca do nosso Estado Social, debate que as condições de crise interna e externa não permitem mais iludir.

Aqui poderá o leitor interrogar-se: faz sentido que um tema como a reforma do Estado Social seja trazido a debate através da revisão constitucional? Em muitas democracias consolidadas, provavelmente não faria. Mas face ao detalhe com que a Constituição regula esta e outras matérias, entre nós a discussão de opções políticas de fundo não pode fazer-se sem considerar alterações à Lei Fundamental.

Debater com seriedade o futuro do Estado Social requer que consideremos friamente a realidade que o percurso dos últimos 35 anos tornou evidente: o Estado não pode dar tudo a todos. Não sem tirar demais a muitos e empobrecer a maioria. A política seguida nos últimos anos pelo Partido Socialista, aliás, é prova disso. A reforma da segurança social? Aumentar a idade da reforma, reduzir as pensões. A reforma da saúde? Encerrar serviços. A reforma da educação? Fechar escolas. Tudo isto sem deixar de aumentar impostos e de aumentar a dívida pública, conduzindo paulatinamente o País para a vizinhança da bancarrota.

A política que está a ser seguida pelo Partido Socialista é uma política possível - embora indesejável, na minha opinião. Mas há alternativas: em vez de tentar salvar o Estado do lastro das suas funções sociais, como o PS tem vindo a fazer, pode-se tentar salvar a política social da asfixia financeira do Estado, como propõe o PSD. O problema é que a Constituição, actualmente, não permite implementar essa alternativa. Por absurdo que pareça, se hoje alguém propusesse que fosse adoptado o sistema de saúde francês ou o sistema educativo sueco confrontar-se-ia à partida com a sua inconstitucionalidade. Ora não consta que se trate de países com níveis de protecção social e de qualidade dos serviços públicos inferiores aos nossos. Por que razão teríamos de manter na Constituição normas que nos impedem de mudar para melhor?

A contrario, a aprovação das propostas do PSD não inviabiliza a prossecução das políticas que defende o PS. Por exemplo, o SNS tal como funciona hoje é perfeitamente compatível com a redacção proposta para o artigo 64º. Aliás, é sintomático que muitas das críticas à revisão constitucional sejam formuladas da seguinte maneira: "isso abre a porta a [preencher com cenário catastrófico a preceito]". É também  isso que está em causa na revisão constitucional: abrir portas onde neste momento se encontram muros, de modo a que os portugueses, através do debate democrático, possam escolher se as querem franquear ou não.

Palavras-chave  Blogues, Política, Portugal 2009
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Abrir as portas da Constituição
Runaldinho (seguir utilizador), 2 pontos , 21:03 | Quarta feira, 21 de julho de 2010
A nossa Constituição tem muros sim. E muitos. Mas mesmo assim, fazem-se trapalhadas atrás de trapalhadas! E muitas! Com uma Justiça que do nome não tem rigorosamente nada, arrastando-se indefinidamente para tomar qualquer decisão do "ou sim ou sopas", remover ou alterar alguns artigos da Constituição que barram o caminho a essa gente pouco séria, era pôr o país a ferro e fogo.
Se já com esta Constituição temos o regabofe que temos, o que seria com um projecto liberal.
Evidentemente que se vivessemos num país com um nivel de escolaridade dos mais elevados da Europa, um tecido produtivo com mão de obra altamente qualificada, quase toda nacional e este pormenor é importante; os países nórdicos tem meia dúzia de milhares de emigrantes, e não um exército de clandestinos, como normalmente existe nos países do sul, com uma justiça que funcionasse pelo menos com a rapidez da americana, e falo só neste aspecto da celeridade, porque não considero a justiça da USA exemplo para ninguém, então admito que se pudesse avançar um pouco mais eliminando ainda alguns resquicios do socialismo.
Agora, com estes governantes "Made In Latino América"?
Não, deixem estar tudo como está, que daí não vem mal ao Mundo!
 
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Abrir as portas da Constituição
Runaldinho (seguir utilizador), 2 pontos , 22:32 | Quarta feira, 21 de julho de 2010
os países nórdicos tem meia dúzia de milhares de imigrantes, e não um exército de clandestinos
 
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