A vitória de Passos Coelho foi uma vitória merecida. Portugal tem uma tradição infeliz de não prestigiar o cargo de líder da oposição, o que faz com que um candidato a primeiro-ministro só apareça nas vésperas de mudança de ciclo.
Passos Coelho há muito que quer ser líder - não é de ontem - e trabalhou para isso. Foi inteligente na sua estratégia e o trabalho compensou. Foi tão bem feito que ficamos com a sensação que Passos Coelho quis perder as eleições para Manuela Ferreira Leite - sem dúvida, o melhor que lhe poderia ter acontecido. Depois dessa derrota - lembram-se? - o candidato não desarmou e aproveitou todas as oportunidades para lançar recados internos: o mais canalha de todos foi durante a campanha das europeias, na qual Passos Coelho disse que se o PSD não as ganhasse teria de repensar a liderança. São os ossos do ofício, dirão, e eu não o negarei.
Esse é o primeiro desafio de Passos Coelho: impedir que outros façam o que ele fez durante estes dois anos. Como se viu na postura de Aguiar Branco, há muita gente no PSD que não põe o interesse do partido à frente dos interesses pessoais, pelo que o ressentimento de muitos em relação a Passos será feroz e militante.
Se vencer esse desafio (terá de o fazer até 2011 - Passos nunca chegará a 2013 na oposição), Passos Coelho terá pela frente outro mais importante: explicar ao país qual a sua estratégia. Para isso, terá de fazer algo a que não está habituado: manter uma coerência minimamente consolidada sobre os problemas do país (ainda no ano passado Passos Coelho defendia a privatização da CGD, um assunto que deixou cair na sua moção de 2010). Para o conseguir, terá de por ordem nas pessoas que o aconselham, porque a ideia que Passos Coelho transmite é a de ser um político muito permeável às companhias. A cara de um projecto político não tem necessariamente de ser o seu cérebro, mas convém que essa verdade não seja evidente.
O terceiro desafio, talvez o mais importante, é o da mobilização dos quadros mais qualificados do PSD: conseguirá Passos Coelho apresentar uma equipa forte, ou estamos condenados aos Marcos Antónios Costas? A apresentação do prometido governo sombra poderá ajudar a desvendar muitas destas incógnitas.