"Primeiro o país, depois o partido, só depois eu e os amigos". A ordem normal das coisas - na formulação de Ângelo Correia - subverteu-se, aos olhos dos críticos de Manuela Ferreira Leite, quando esta insistiu em manter António Preto na lista de candidatos por Lisboa. A decisão foi tomada no mesmo dia em que o deputado pedia a suspensão do mandato para poder ser julgado por fraude fiscal (ver texto relacionado).
Carlos Carreiras, líder da distrital lisboeta, não consegue compreender: "O mais grave é que existem marcas e estas têm valores. O que foi feito é na antítese da marca dos valores de MFL. É a contradição dela própria", diz ao Expresso.
Mesmo no núcleo duro da presidente do PSD a opção não foi cabalmente entendida. Nuno Morais Sarmento, sem nunca mencionar nomes, lamentou que as listas não espelhassem a imagem de "rigor e ética" habitualmente associada à ex-ministra. E outro conselheiro da líder, elogiando-lhe o sangue frio nalgumas das escolhas, admite recear que, com o caso de António Preto, ela tenha "estragado tudo". E o que explica esta 'protecção' de Ferreira Leite a António Preto?
Rezam as crónicas que há entre os dois uma amizade fortíssima, uma ligação "quase umbilical", que remontará aos idos da campanha para as legislativas de 1999, mas que se consolidou definitivamente, quando em Janeiro de 2000, a actual líder do PSD disputou (e ganhou) a liderança da distrital de Lisboa a Duarte Lima. Venceu, por uma escassa maioria de 150 votos, e no PSD garante-se que ficou a dever a vantagem ao empenho do que viria a ser seu vice-presidente.
Agora, com eleições à porta, Manuela tem razões políticas, a acrescer às pessoais, para "não deixar cair" o amigo. "Foi pragmática", diz fonte social-democrata. Ao entrar em ruptura com Carlos Carreiras, o actual líder distrital, Leite precisava de uma "distrital alternativa": "Há eleições para ganhar, é preciso pôr a máquina do PSD/Lisboa a trabalhar". E neste capítulo Preto é, ele próprio, uma máquina.
Texto publicado na edição do Expresso de 8 de Agosto de 2009