20 de junho de 2013 às 0:00
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A Turquia depois do Mavi Marmara

Miguel Monjardino (www.expresso.pt)

Israel perdeu. A Turquia ganhou.

É assim que os governos e a imprensa dos países europeus, EUA e Canadá têm analisado as consequências estratégicas do que aconteceu a bordo do navio "Mavi Marmara" no último domingo.

O intenso debate sobre este assunto mostra duas coisas significativas. A primeira é que praticamente tudo o que tem sido publicado na imprensa internacional nos últimos dias gira à volta da posição de Israel após a violência e as mortes no "Mavi Marmara". O consenso geral é que Israel está entre os dilemas e o declínio.

A segunda coisa significativa é que a Turquia tem merecido muito menos atenção. O "Mavi Marmara" confirma a ideia generalizada de que Ancara está inexoravelmente a caminho de ser uma potência regional com uma influência significativa na economia e na política internacional. Ao contrário do que acontece em Telavive, a Turquia está em ascensão e tem opções. O problema é que isto não é bem assim.

Os últimos anos tornaram clara a ambição de Ancara em voltar a ser um actor independente. Do ponto de vista dos actuais decisores turcos, esta ambição exige uma aproximação a países como a Síria e o Irão, um distanciamento em relação a Telavive e reequilibrar o relacionamento com Washington. Como tem sido hábito no Médio Oriente, os palestinianos são agora vistos pelo Governo turco como um instrumento político em termos domésticos e externos.

Num contexto deste tipo, Ancara olhou para a flotilha da organização não-governamental turca IHH como uma alavanca para conseguir duas coisas. A primeira está à vista de toda a gente - pressionar e criar dificuldades a Israel. A segunda é menos óbvia mas é importante. Ancara não quer deixar a causa palestiniana entregue apenas aos países árabes e ao regime iraniano. Tendo em conta aquilo que está publicamente disponível, acho que o "Mavi Marmara" foi uma surpresa para o Governo turco. Em vez de uma alavanca, o navio revelou-se uma prancha política para as ambições externas de Ancara.

Os próximos anos prometem mais espaço de manobra internacional para a Turquia e países como o Brasil, Índia, Indonésia e África do Sul. Parte do espaço político que vai estar crescentemente disponível tem a ver com os orçamentos e as dívidas públicas dos países europeus e dos EUA. Uma das coisas mais perturbadoras de notar nos actuais debates políticos europeus é a ideia de que a actual crise financeira é uma coisa passageira, uma coisa que pode ser atribuída a um grupo de banqueiros e especuladores carregados de más intenções. A ideia pode ser popular mas é completamente errada.

A crise é estrutural e tem a ver com o preço dos nossos modelos sociais. Este preço é elevadíssimo e incomportável para as sociedades que abdicaram de ter crianças e esperam que os mais novos se sacrifiquem toda a vida para que os mais velhos possam gozar os seus direitos adquiridos e as suas reformas durante décadas. As sociedades e os governos europeus estão entre défices orçamentais e dívidas públicas cada vez mais elevadas e um vulcão político doméstico. Resta saber se teremos coragem para enfrentar o problema. Como os sinais não são animadores, o mais natural na próxima década é que a ambição, os recursos e o espaço de manobra europeu em termos externos seja inevitavelmente menor.

Onde é que isto deixa a Turquia? Com uma oportunidade, claro. Mas esta oportunidade não nos deve levar a esquecer que a ascensão de Ancara é um acontecimento bastante recente, que os seus resultados diplomáticos são ainda limitados e que o país está profundamente dividido em termos domésticos. O regresso da Turquia não terá lugar sem grandes tensões internas.

A melhor maneira de percebermos para onde vai Ancara é olhar com atenção para o que os seus decisores vão realmente fazer em relação a Israel. O que vai ser decisivo não é a retórica mas sim os actos.

Número
18 meses depois da guerra entre o Hamas e Israel, o "Mavi Marmara" aparece como um símbolo dos dilemas de Israel em Gaza e das opções da Turquia. Ancara terá mais margem de manobra nos próximos anos.
Soluções
+ Os prémios para o melhor aluno e para o autor do discurso de despedida da classe de 2010 em West Point foram atribuídos pela primeira vez a duas mulheres - Liz Betterbed e Alex Rosenberg
- O nível de desemprego na zona euro é o mais alto desde 1999

O Japão e os EUA


Yukio Hatoyama, o primeiro-ministro do Japão, resignou ao cargo na quarta-feira. O relacionamento com os EUA esteve no centro deste importante acontecimento político. Durante a campanha eleitoral, Hatoyama prometeu fechar a base militar dos fuzileiros americanos em Futenma, Okinawa, e repensar o relacionamento com os EUA. Na semana passada, o líder do Governo japonês chegou à penosa conclusão de que os interesses do seu país exigiam que os militares americanos continuassem na base de Futenma.

miguelmonjardino@gmail.com

Texto publicado na edição do Expresso de 5 de Junho de 2010

Comentários 4 Comentar
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TURQUIA, ISRAEL, EUROPA, ESTADOS UNIDOS
Em qualquer caso importa não esquecer as raízes hitóricas do Império Otomano de que a Turquia é herdeira, o que dando-lhe influência imediata poderá criar um sentimento anticolonial a médio-prazo. A Europa dos actuais sentados em Bruxelas nada vê um palmo à frente do nariz na esperança de que os Estados Unidoas da América continuem a garantir a defesa última de Israel, que é dizer-se colmatar a inércia e cobardia da Europa decadente. Só que Israel tem orgulho suficiente para perceber que a melhor estratégia de defesa é o ataque rápido e eficaz para que Iranianos e os aliados do Hamas compreendam que o futuro pode ser incerto para todos se continuarem com provocações que exigem retaliação, como meio de garantir que Israel continuará pelos séculos dos séculos cumprindo um destino traçado desde Ur, ao Sinai, à Terra Prometida. Todas as diásporas, onde quer que se encontrem, não podem permitir qualquer novo Holocausto, desta vez sob as ordens directas de Teerão e indirecta dos islamitas de Ancara.
Mavi Marmara 1
Não considero que a actuação da frota “humanitária” tenha sido uma surpresa para Ancara. A actuação e as intenções do IHH não são desconhecidas para o governo turco e se não houve um apoio explícito à acção dessa organização islâmica, o que é verdade é que também não houve, por parte das autoridades, a mínima tentativa de a impedir.
Isto porque, na óptica de um governo islâmico turco, a frota “humanitária” serviria sempre os interesses da Turquia, acontecesse o que acontecesse. Caso ela passasse, seria um triunfo turco, que somariam pontos na região; se ela fosse travada (de preferência com violência), os turcos seriam mártires pela causa muçulmana, pela liberdade, etc., ou seja, os turcos somariam pontos. Era uma win-win situation.
Durante décadas, a orientação nacionalista impressa ao país por Ataturk levou os turcos a virarem as costas ao Médio Oriente e a virarem-se para a Europa como fonte de inspiração, ao mesmo tempo que internamente implementavam uma política de turquização forçada da população; ainda dentro de uma ideia nacionalista étnica, os anos 90 assistiram ao regresso da ideia pan-turquista de Enver Paxá como forma da Turquia agregar para si um espaço de influência que lhe era negado na Europa. Mas essa política falhou;
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Finalmente, com a nova óptica islâmica do governo, abandonou-se progressivamente a ideia do nacionalismo étnico, o que permitiu encarar o Islão como a pedra angular da identidade nacional. Desta forma, não só a tentativa de imposição da cultura turca aos curdos deixou de fazer sentido como, devido aos antecedentes históricos e à proximidade cultural, baseada na religião, o Médio Oriente voltou a ser a área de actuação de actuação preferencial da Turquia.

O que pode a Europa fazer? Pouco ou nada. Em primeiro lugar, a Europa pertence a uma área cultural diferente (e assim deve continuar), mas não tem a coragem de o assumir e de assumir uma posição clara quanto a isso na sua política externa; e em segundo lugar, a Europa não tem a vontade de “arregaçar as mangas” e lançar-se nas lides, ou seja, de tomar riscos, de escolher lados, de traçar linhas e de pegar em armas.

A Turquia não tem esses problemas, e por isso ela tem capacidade de triunfar.
Grupo de Apoio à Compra da Vivo pela PT
Laranjinha, tu não és mau rapaz, mas és muito ignorante acerca de uma série de áreas e tens uma arrogância intelectual que só te desqualifica. Qualquer que seja o tema, desde energia, passando por telecomunicações, até à cultura debitas bitaites a torto e a direito com o copy/past incansável dos sites da moda e nem te apercebes que ninguém se dá ao trabalho de os ler.

Eu não tenho a vida folgada que tu tens. Mando umas larachas no fakebook nos intervalos do trabalho para descomprimir. Óbviamente que não vou ler e reler nada do que mando. Isto não é nennhuma conferência de especialistas e não tenho tempo para isso. Estou a preparar 2 missões onde terei que fazer apresentações e apresentar soluções em projectos que envolvem cerca de 50 das maiores empresas da UE na área do aeroespacial e afins. Aí não se podem cometer gafes de qualquer espécie porque ninguém perdoa.

Digo-te que não sou nacionalista, nem quero ter nada a ver com essa tropa fandanga. Diferenças entre mim e eles, mutíssimas. Eles são radicalemente contra a imigração, eu sou a favor, desde que haja algum controlo e a integração dos imigrantes. Eles são xenófobos, eu não sou. Acho que só nos enriquecemos no contacto com outras culturas e num intercânbio equilibrado e saudável sem subserviências. Agora não sou é subserviente de Boches e Franceses como tu e o teu irmão são. Não é de espantar que uma França ou uma Alemanha, ou o Reino Unido tenham mais cientistas e homens de letras e cultura do que Portugal. Pu
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