A Turquia depois do Mavi Marmara
Israel perdeu. A Turquia ganhou.
É assim que os governos e a imprensa dos países europeus, EUA e Canadá têm analisado as consequências estratégicas do que aconteceu a bordo do navio "Mavi Marmara" no último domingo.
O intenso debate sobre este assunto mostra duas coisas significativas. A primeira é que praticamente tudo o que tem sido publicado na imprensa internacional nos últimos dias gira à volta da posição de Israel após a violência e as mortes no "Mavi Marmara". O consenso geral é que Israel está entre os dilemas e o declínio.
A segunda coisa significativa é que a Turquia tem merecido muito menos atenção. O "Mavi Marmara" confirma a ideia generalizada de que Ancara está inexoravelmente a caminho de ser uma potência regional com uma influência significativa na economia e na política internacional. Ao contrário do que acontece em Telavive, a Turquia está em ascensão e tem opções. O problema é que isto não é bem assim.
Os últimos anos tornaram clara a ambição de Ancara em voltar a ser um actor independente. Do ponto de vista dos actuais decisores turcos, esta ambição exige uma aproximação a países como a Síria e o Irão, um distanciamento em relação a Telavive e reequilibrar o relacionamento com Washington. Como tem sido hábito no Médio Oriente, os palestinianos são agora vistos pelo Governo turco como um instrumento político em termos domésticos e externos.
Num contexto deste tipo, Ancara olhou para a flotilha da organização não-governamental turca IHH como uma alavanca para conseguir duas coisas. A primeira está à vista de toda a gente - pressionar e criar dificuldades a Israel. A segunda é menos óbvia mas é importante. Ancara não quer deixar a causa palestiniana entregue apenas aos países árabes e ao regime iraniano. Tendo em conta aquilo que está publicamente disponível, acho que o "Mavi Marmara" foi uma surpresa para o Governo turco. Em vez de uma alavanca, o navio revelou-se uma prancha política para as ambições externas de Ancara.
Os próximos anos prometem mais espaço de manobra internacional para a Turquia e países como o Brasil, Índia, Indonésia e África do Sul. Parte do espaço político que vai estar crescentemente disponível tem a ver com os orçamentos e as dívidas públicas dos países europeus e dos EUA. Uma das coisas mais perturbadoras de notar nos actuais debates políticos europeus é a ideia de que a actual crise financeira é uma coisa passageira, uma coisa que pode ser atribuída a um grupo de banqueiros e especuladores carregados de más intenções. A ideia pode ser popular mas é completamente errada.
A crise é estrutural e tem a ver com o preço dos nossos modelos sociais. Este preço é elevadíssimo e incomportável para as sociedades que abdicaram de ter crianças e esperam que os mais novos se sacrifiquem toda a vida para que os mais velhos possam gozar os seus direitos adquiridos e as suas reformas durante décadas. As sociedades e os governos europeus estão entre défices orçamentais e dívidas públicas cada vez mais elevadas e um vulcão político doméstico. Resta saber se teremos coragem para enfrentar o problema. Como os sinais não são animadores, o mais natural na próxima década é que a ambição, os recursos e o espaço de manobra europeu em termos externos seja inevitavelmente menor.
Onde é que isto deixa a Turquia? Com uma oportunidade, claro. Mas esta oportunidade não nos deve levar a esquecer que a ascensão de Ancara é um acontecimento bastante recente, que os seus resultados diplomáticos são ainda limitados e que o país está profundamente dividido em termos domésticos. O regresso da Turquia não terá lugar sem grandes tensões internas.
A melhor maneira de percebermos para onde vai Ancara é olhar com atenção para o que os seus decisores vão realmente fazer em relação a Israel. O que vai ser decisivo não é a retórica mas sim os actos.
- O nível de desemprego na zona euro é o mais alto desde 1999
O Japão e os EUA
Yukio Hatoyama, o primeiro-ministro do Japão, resignou ao cargo na quarta-feira. O relacionamento com os EUA esteve no centro deste importante acontecimento político. Durante a campanha eleitoral, Hatoyama prometeu fechar a base militar dos fuzileiros americanos em Futenma, Okinawa, e repensar o relacionamento com os EUA. Na semana passada, o líder do Governo japonês chegou à penosa conclusão de que os interesses do seu país exigiam que os militares americanos continuassem na base de Futenma.
Texto publicado na edição do Expresso de 5 de Junho de 2010


