A questão do Código Contributivo é a prova, para quem dela precisasse, que José Sócrates não vai deixar a oposição sê-lo. Resguardando-se no falacioso argumento da vitória eleitoral, o Primeiro-Ministro (atropelando, uma vez mais, os deveres institucionais de respeito e lealdade para com o órgão que lhe viabiliza o Governo) e os seus acólitos irão fazer de tudo para convencer a população de que estão a ser alvo de uma absurda campanha negativa que os impede de governar com o programa sufragado.
Pois há que dar algumas novidades aos tristes trastes que se prestam a este ridículo e às pessoas que acabam a ser convencidas por esta canção do bandido. O programa do PS foi votado, tal como todos os outros. E todos os programas tiveram o apoio de partes da população que, pelos mais básicos princípios da democracia, não podem ser desprezadas na condução da política nacional. Custa, é verdade. Principalmente depois de um governo intocável que fez da Assembleia da República gato-sapato. Mas, independentemente de tudo o resto, o Partido Socialista e José Sócrates em particular não se podem reservar o direito de exigir aos partidos com representação parlamentar que cuspam nos acordos feitos com o eleitorado e desprezem o peso da sua função. Se hoje o Código Contributivo foi rejeitado, foi porque a maioria dos representantes do povo, eleitos legitimamente, decidiram que a rejeição era o melhor para o interesse do país e era aquilo que o seu eleitorado pretendia deles. Se o Partido Socialista não lida bem com a mais elementar regra da democracia, a sua direcção terá um belo retiro num qualquer paraíso totalitário sul-americano. Até já têm amigos por lá.
O que me dá pena no meio de toda esta história é que os deputados, os comentadeiros e os analistas e os "educadores do povo" em geral se calem perante este vergonhoso espectáculo. Continuam com a costumada pobreza de espírito e, quando não, de carácter.