25 de maio de 2013 às 21:14
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A tourada e o bom senso

Não vou aqui, mais uma vez, discutir o que penso da tourada, do que ela significa para as culturas raianas e do sul do País e que têm na relação com o touro um elemento fundamental da sua identidade. O debate fica quase sempre demasiado quente e irracional para ser produtivo.

O Bloco do Esquerda (pela mão de Catarina Martins, uma das deputadas que mais respeito pelo excelente trabalho que tem feito na área da cultura) e os "Verdes" propuseram a proibição da transmissão de tourada na RTP e o fim dos apoios públicos - de autarquias incluídas, imagino eu - aos espetáculos tauromáquicos. Discordo. E a minha discordância é independente do que penso sobre a tourada que, como já escrevi mais do que uma vez, é diferente da posição destes dois partidos. A minha discordância tem a ver com a forma como penso que devem ser dirigidos os serviços do Estado.

Primeiro: não penso que a programação da RTP deva ser determinada, avulso, pelo Parlamento. Cabe ao poder político definir objetivos genéricos para o que deve ser o serviço público de televisão e criar novas regras para a nomeação do conselho de administração da rádio e televisão do Estado. Como, aliás, o Bloco de Esquerda tem defendido. Ir enxertando na lei da televisão esta e aquela proibição (ou ir alargando proibições que já existem), esta e aquela recomendação, é um mau princípio legislativo que vai contra as posições que o próprio Bloco de Esquerda tem defendido para a autonomia da RTP face ao poder político.

Segundo: deve o poder local manter uma relação próxima com as suas populações. É impensável que as câmaras municipais de Barrancos ou de Vila Franca de Xira, só para pegar em dois exemplos, não se envolvam nas principais festas locais. Qualquer lei que assim o determinasse seria naturalmente contornada por estas autarquias. Porque a uma lei não bastam as suas intenções. É preciso que seja minimamente aceitável para a maioria da população a que se aplica.

Quem, por forte convicção, quer acabar com a tourada - demanda que não acompanho, mas aceito como legítima - tem de seguir um caminho mais difícil, mas mais seguro: o do confronto cultural. Qualquer lei que a proíba, diretamente ou através de outro tipo de constrangimentos - de divulgação ou financiamento -, está condenada ao fracasso enquanto para partes significativas da população de algumas regiões do País a tourada faça parte da sua identidade cultural.

A França, ao que sei, encontrou uma solução inteligente: tem legislação específica para o sul do país, onde a tourada está fortemente enraizada. Parece-me um compromisso aceitável.

Escrito isto, acho lamentável que o debate sobre este assunto acabe quase sempre, como acabou numa recente audição pública promovida pelo Bloco de Esquerda (por comportamento desrespeitoso dos defensores da tourada), em insultos. Nem a tourada pode, como já vi num inenarrável anúncio de um movimento de defesa dos animais, ser comparada a maus-tratos a mulheres praticados em alguns países, nem as propostas do Bloco de Esquerda e dos "Verdes" são "fascistas", como disse uma associação de aficionados. Com um debate um pouco mais sereno sobre este assunto poderiam ser encontradas soluções equilibradas. Ainda não parece ter chegado esse momento.

Nota final: o único argumento que nunca aceito é o de que "há outros assuntos mais importantes". A natureza deu aos humanos a capacidade de se preocuparem e resolverem vários os problemas ao mesmo tempo. A crise não suspende toda a realidade que exista para além dela.

Comentários 105 Comentar
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O País enfrenta a crise pelos "cornos"!
Numa linguagem de toiros é o que está a fazer o Povo Português,enfrentando a crise e afirmando-se na cena internacional como um País que cumpre os seus contratos e é capaz de se reerguer,apesar das tempestades e vendavais que nos atingiram.
E é numa altura destas que o Bloco de Louçã vem com uma proposta sobre touradas e uma quase proibição de reportagem em televisão.
É caso para dizer que Louçã ou anda muito à frente ou então perdeu em definitivo o comboio dos que querem participar na recuperação nacional e no trabalho colectivo que diariamente a generalidade da População está a desenvolver.
A politica e os que são eleitos tem concerteza outros assuntos mais sérios e a merecer a prioridade da sua atenção.Ou não será assim?
Re: O País enfrenta a crise pelos Ver comentário
nao as touradas... Ver comentário
nao a transmissao das touradas... Ver comentário
Re: O País enfrenta a crise pelos Ver comentário
VA POR USTED!
Caro Daniel. Tinha qiue chegar este dia. Hoje estou consigo.Parece mentira mas assim é. Os meus parabens e o meu maior elogio:

TORERO, TORERO, TORERO!

Toiros e touradas
Crónica do bom senso, afastando-se desse radicalismo "progressista" de gente que não conhece o país nem o povo.

Há que ter em conta que o bicho homem não é nenhum computador, que dá sempre a mesma resposta à mesma questão. Intitulamo-nos racionais, mas os motivos das maiores paixões são irracionalidades como a religião, o futebol, as touradas,etc.É preciso saber viver com isso .

As festas anuais das povoações ribatejanas têm como personagem principal o toiro bravo e qualquer interferência seria um disparate de ordem pública e um suicídio eleitoral.

Quem não deve achar graça nenhuma a esta iniciativa do BE é a presidente da câmara de Salvaterra, que, se defender o fim das touradas,garante o fim da sua carreira política.

Quanto às touradas na TV, estão a outro nível. Podem incluir-se numa tentativa de venda de produto turístico, que começou na década de de 60, com construção de praças em zonas como Póvoa do Varzim ou Albufeira, onde as touradas não passam de palhaçadas, e as pessoas se riem do espectáculo e das peripécias das pegas.
Em Vila Franca, Santarém , Alcochete ou na Moita ninguém se ri numa corrida de toiros. É local de devoção, onde só cabem o êxtase ou a raiva..............
Re: Toiros e touradas Ver comentário
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Autonomia da RTP face ao poder político.
Pelos vistos Daniel Oliveira entende que os directores da RTP podem fazer a gestão dos conteúdos televisivos que bem lhes apetecer enquanto o POVO, através do órgão que o representa, o Parlamento, nada tem a dizer. Grande democracia!
Quanto fracasso que anuncia de "qualquer lei que a proíba, directamente ou através de outro tipo de constrangimentos - de divulgação ou financiamento" nunca vi argumento tão fraco para justificar o cancelamento da iniciativa legislativa. Se a lei vai fracassar então por que razão se preocupará tanto com ela o cronista.
Para concluir direi apenas que o Daniel Oliveira quando assume o papel defensor do conservadorismo torna as suas crónicas muito menos interessantes que o habitual.
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Re: Autonomia da RTP face ao poder político. Ver comentário
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Touradas e outros assuntos
Caro DO

Gostei do artigo, embora eu até seja anti-tourada. Parece-me razoável e procura meio-termos o que é raro no arco fora do poder.

Mas o meu comentário vai directamente para o Post Scriptum: O ser humano tem de facto capacidade para discutir vários problemas em paralelo. E mesmo que não o tivesse, os partidos e governos são compostos por centenas ou milhares de pessoas que devem estar envolvidos em várias frentes. Mas isto não significa que devamos permitir que o debate político seja constantemente marcado pelos chamados "temas fraturantes" tais como as drogas leves, casamento gay, touradas, véu islâmico, lei do tabaco, aborto, etc. É importante que a maioria dos esforços estejam concentrados nos assuntos mais importantes: educação, saúde, finanças, economia, justiça, europa, etc.

Infelizmente, o BE tem utilizado a sua capacidade mobilizadora para se concentrar nos assuntos laterais mostrando muito pouca capacidade para vencer nos assuntos centrais. Abro a excepção ao próprio DO que me parece muitos pontos acima dos seus colegas de partido.

Cumprimentos,

António

oreivaivestido.blogspot.pt
MAÑANA ... TODOS A PAMPLONA!
VIVA SAN FERMIN!
A tourada-e-o-bom-senso
É sem dúvida nenhuma um assunto delicado e embora mal comparado faz-me lembrar o debate do aborto. No fundo todos são contra, mas se de um lado temos uma questão filosófica, noutro temos uma questão económica. As touradas são uma questão de sobrevivência para aquela raça de touros. Nem me refiro à tradição, porque essas começam e acabam. Tal como as portagens nas antigas SUTs, o congelamento das rendas, por vezes à coisas que parecem muito boas e depois revelam-se muito más. São os tais casos que todos têm razão, mas também ninguém a tem.

viriatoapedrada.blogspot.pt/2012/05/afinal-quem-e-fera.html

Re: A tourada-e-o-bom-senso Ver comentário
Re: A tourada e o bom senso
Aplaudo de pé o seu artigo com apenas um único senão!

A luta tem de ser feita pelo confronto cultural???????

Se eu gostar de ouvir Toni Carreira todos os dias durante 4h, acha que eu tenho o direito de obrigar 10 000 000 de Portugueses a ouvirem o Toni Carreira durante 4 horas? É que pelas suas palavras julgo que sim!

A tentativa de proibição da nobre arte tauromáquica é apenas mais uma acha na luta secular entre aqueles, que nunca saindo do país, querem que Portugal se transforme num país estrangeiro (Ou pelo menos na sua visão do que é um país estrangeiro) e aqueles que são Portugueses e sentem orgulho em ser portugueses.

A Tauromaquia não afecta ninguém, pois não há qualquer Lei que obrigue, a que todos os Portugueses tenham que assistir a espectáculos tauromáquicos. Quem não gosta, não vê!

Por isso, os inimigos da Tauromaquia, como o Bloco de Esquerda, que não gostam de tauromaquia (Um direito que se lhes assiste) querem impôr o seu gosto a 10 000 000 de pessoas.

ISTO É FASCISMO!
o BE QUER TRANSFORMAR MILHÕES DE PORTUGUESES EM ESTRANGEIROS NA SUA PRÓPRIA TERRA!

E não foi por serem tratados como estrangeiros na sua própria terra, que os autóctones do antigo império colonial se revoltaram com armas?

As posições da canalhada do BE e dos amigalhotes dos animais, não passíveis de respeito. Há que pegar em armas e defender a pátria e a cultura portuguesa, exterminando o vírus da sua própria destruição!
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A "cóltura" do livro a metro, maison ... Ver comentário
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Sonsas e intolerantes
Com um pedido prévio de desculpas, tenho um grande respeito pelas mulheres parlamentares, esta iniciativa é de gente sonsa e intolerante, de quem não respeita o Povo na sua identidade cultural e não percebe nada, nem nunca cuidou de um animal. O espetáculo taurino, tem uma dimensão económica e social que tem de ser preservada, a não ser que as Catarinas e as Heloísas da AR arranjem uma solução para absorver mais uns milhares de desempregados. Deveriam bater-se por uma regulamentação exigente das touradas, impedindo os diretores de corrida de autorizarem mais e mais ferros sem justificação, os cavaleiros e os espadas, quando os há, deviam aplicar um número mínimo e ponto final.
Aficións de frei Daniel
Como é afirmado no artigo, todos sabem que a maioria dos aficionados se encontram no sul do país, mas também sabemos bem que outra afición ainda se encontra por lá bem espalhada... É da mesma cor em que o toiro gosta de investir...

Até nem espanta muito esta reacção de frei Daniel, um ex-aficionado do partido bolchevique... se calhar a tentar jogar em todos os cavalos, como fez o pcp ao colocar o seu apêndice, os melancias pev, a propor uma lei semellhante à do bloco... Uma no cravo e outra na ferradura, para ganhar sempre... Talvez seja esse o meio termo de frei Daniel. Se as touradas fossem do cavaquistão, ou do norte do país, ou estivessem remetidas a uma minoria que não lhe interessasse, talvez já não fosse tão sereno e equilibrado...
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Pois
"Não vou aqui, mais uma vez, discutir o que penso da tourada, do que ela significa para as culturas raianas e do sul do País e que têm na relação com o touro um elemento fundamental da sua identidade."

A tourada significa para a nossa cultura, o mesmo que tratar a mulher abaixo de cão e a lapidação pública, significam para a cultura muçulmana e ainda o mesmo que as muneras de gladiadores significava para a cultura romana.
Ou seja, é tudo para ACABAR!
legalizar..
...lutas de galo e de cães, já! Urge uma legislação decente que trate das nossas prioridades, já!

barbarraridades.blogspot.pt/
Re: A tourada e o bom senso
Acho pouco feliz misturar-se na mesma 'arena', situações tão díspares como as de V.ª F.ª de Xira e as de Barrancos ou Monsaraz. Nestes últimos dois casos, há touros de morte, há um espectáculo que me parece inadmissível em termos civilizacionais para um país que se pretende evoluído. Justificar o injustificável sob o eufemismo de 'tradição cultural', é um exercício reacionário e intelectualmente muito cómodo. Uma coisa é colocar uns touros na rua para o povo ir fugindo/brincando deles, outra coisa, substancialmente diversa é o ato perverso de se matar animais e fazer disso espectáculo. Até em Espanha, onde o fenómeno das touradas atinge proporções inimagináveis face à realidade portuguesa, há um forte debate em curso em torno da proibição progressiva dos touros de morte. Quanto aos conteúdos da RTP e à divulgação das touradas, tenho um sentimento algo ambíguo, pois se é verdade que a televisão pública deve divulgar a cultura portuguesa, não será menos verdade que transmitir touradas fica a dever muito à pedagogia que ela, RTP, deve ter em consideração na sua grelha de programas. Mas quando em dias recentes, já que falamos de animais, vi a RTP promover um branqueamento colossal de duas figuras condenadas pela justiça como Isaltino Morais e Macário Correia, concedendo-lhes tempo de antena para justificarem o injustificável, pouca margem restará para criticarmos os critérios que regem aquela estação televisiva...
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O maior golpe que os Romanos deram na sua cultura.
.. foi terem acabado com os espectáculos do Coliseu. Em que os escravos eram atirados aos Leões. Era assim não era?! Ora se tivessem mantido o espectáculo escusava eu de estar agora aqui com esta dúvida cultural, mostrando ignorância. E até nas várias deslocações que já fiz a Roma, algumas com visitas a museus, e obras de arte inigualáveis que só mesmo a Itália tem, me teria deliciado com o espectáculo.

A questão da toiradas (é assim que se escreve não é ?) não se resolve proibindo a sua transmissão como pretendia o BE. Resolve-se proibindo a sua realização. Pura e simplesmente!
That`s it!

É claro que depois isto ia ter um problema: os muitos panascões que por aí há que usam a sua "aficion" marialva para encobrir a sua panasquice iam ficar de careca destapada! Mas como em tudo não há bela sem senão!

O aficionado Daniel Oliveira
Sabemos que o DO tem esse gosto perverso e macabro de assistir entusiasmado á violentação, humilhação e agonia de um animal que sofre atrocidades para excitação de alguns. Esse seu pecado trata-se em sede própria. Porém, o que mais me espanta nesta crónica é que sabendo que se trata de um gosto assumidamente mórbido de alguns, esses desculpam-me no argumento estafado da tradição e da cultura. E é bem verdade! Esta prática está enraizada na cultura ibérica. Agora eu pergunto ao DO e a outros aficionados. Também a excisão de mulheres faz parte da cultura de alguns povos em Africa. E todos sabemos enumerar dezenas de razões para combater e denunciar semelhante prática. O que distingue os imbecis dos restantes é a sua capacidade de evoluir, de ir mais além, e saber que por ser a tourada uma tradição, não deve ser por si só motivo para a acarinhar. Existem boas e más tradições. As boas acarinham-me as más combatem-se educando, sensibilizando ou mesmo proibindo. O gosto mórbido e perverso do DO impede-o nesta matéria de ir mais além. Fica-se pelo essencial da argumentação. Eu estou convencido que o DO é capaz de mais, já mostrou noutras crónicas capacidade intelectual para ir mais além do que aquilo que revelou hoje.
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