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A subtileza da aranha - privatização de lucros e socialização de prejuízos

Maria Luísa Vasconcelos, Professora da Universidade Fernando Pessoa
12:00 Sexta feira, 23 de setembro de 2011

Em outros tempos, de credulidade na suposta capacidade de autorregulação dos mercados, estranhar-se-ia a desconfiança na orquestração pelos preços, a suspeita quanto às expectativas racionais dos agentes, ou a interferência na premissa de garante da ordem liberal, que reduz o Estado a disciplinado observador. Estranhar-se-ia a dúvida sobre a (teoria da) teia de aranha, tradutora do equilíbrio tendencial, do bom funcionamento da economia em mercado livre e, por sua extensão, da ausência de crises sistémicas.

Mas neste outono, que alguns insistem em chamar "primavera de um qualquer sítio", vale a pena pensar na aventura que, em qualquer selva, pântano ou fossa profunda, traduz o ciclo de equilíbrio da economia, à semelhança da biosfera. De novo, gotículas de geada, sem mais ajuda, tornam percetíveis essas maravilhosas e letais construções, só possíveis pela extraordinária subtileza da aranha, que armadilham cada canto, cada espaço que se pensava transparente e aberto.

Torna-se rápida a analogia com as teias de certos mercados que primeiro nos surgem transparentes e que ocasionalmente, e sempre depois, no estrangulamento, qualquer poeira torna a sua rede visível. Mais grave se torna a leitura se pensarmos na "tolerância" de uma sociedade que se habituou a permitir a privatização dos lucros e a socialização dos custos e dos prejuízos... nesses outros tempos, estranhar-se-ia as boas-vindas à nacionalização de bancos aclamando-se a simultânea e progressiva privatização parcial da saúde e da segurança social.

Não se garantindo equidade no esforço que as sociedades devem fazer, temo que não sobrevivam os que já passam fome, os que já não têm medicamentos (vão faltar? não para todos!), os que não terão o transplante, os que não terão eletricidade em casa, os que não terão casa.

Afinal quantos morrerão?

A quem de direito torna-se obrigatório dizer que não haverá escolhidos, sem teias transparentes.




Clique na imagem para visitar o site da Universidade Fernando Pessoa




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