Álvaro Lourenço tem "70 anos e meio", como faz questão de sublinhar. O diagnóstico de insuficiência renal crónica e todos os sustos que se lhe seguiram obrigaram-no a ser muito preciso quando fala de tempo. Mas a exactidão não se fica nas datas. Quem o ouve explicar os tratamentos por que passou até receber um rim, há um ano, no Hospital Garcia de Orta (Almada), tem a sensação de ouvir falar um médico. Termos como "frémito, fístula, ureia e sistema venoso" saem-lhe da boca sem embaraço.
Depois de alguns anos de muito sofrimento - "com cãibras e dores nas pernas que poucos imaginam" - a doença travou-lhe os rins em 2001. Recuperou alguma qualidade de vida com oito anos de hemodiálise, apesar das marcas que lhe ficaram para toda a vida no braço (ver foto ao lado) e do tempo que lá deixou - quatro horas por sessão, três vezes por semana. Considera, contudo, que oito anos são "uma brincadeira, sabendo-se que há quem faça hemodiálise durante 20".
Foi com o transplante, no ano passado, que se sentiu rejuvenescer. "Ficamos com a ilusão de que somos saudáveis, mas não somos auto-suficientes porque dependemos dos medicamentos (neste momento 10 por dia)". Quando recebeu
a chamada do hospital a perguntar se queria ser transplantado, Álvaro não estava preparado. "Sempre achei que, havendo tantas pessoas novas a precisar, não iriam aguentar um velho. Nem queria acreditar quando me telefonaram".
Do órgão que recebeu sabe apenas que tem mais ou menos a sua idade e não o incomoda o facto de ter vindo de um cadáver. "Nem penso nisso. O rim suporta-me a mim e eu suporto-o a ele. Se não fosse eu, ele também não existiria". Considera que lhe saiu o Euromilhões e sabe que já não vai ter outra oportunidade. "Por isso, vou tomar a medicação religiosamente para o resto da vida".