1. Que a campanha do aborto foi vergonhosa, de parte a parte, não há hoje dúvidas. Por um lado tínhamos aqueles que consideravam a proibição do aborto uma demonstração de machismo, de domínio sobre as mulheres; por outro, tínhamos aqueles para quem toda a fundamentação estava escrita na Bíblia. O debate apenas incluiu, na maioria das vezes, duas trincheiras de paranóicos cheios de verdades dogmáticas.
2. Independentemente da mediocridade das partes, a verdade é que houve uma a ganhar. E a que ganhou é responsável, claro, pela situação actual. Meus caros, hoje em dia não são as mulheres em risco de vida ou as mulheres violadas que abortam. Muitas jovens decidiram substituir o preservativo pelo aborto e numa sociedade de desresponsabilização, nem colocam a hipótese de estarem a praticar um acto eticamente condenável.
3. O que está aqui em causa não é a posse da barriga, como diziam uns senhores há uns anos. A posse da barriga está mais que definida e eu não quero tirar nada a ninguém. O que está aqui em causa são vidas. Vidas que foram e são todos os dias impedidas com motivos que não podem ser válidos numa sociedade desenvolvida.
4. Há situações em que o aborto é legítimo. Pessoalmente, considero duas: violação e risco de vida para a mãe. Na primeira, a mulher não é responsável pela criança que está a gerar, pelo que ninguém tem o direito de a obrigar a mantê-la. Seria como alguém nos meter uma criança à porta e virem-nos prender por não a acolhermos. Na segunda, coloca-se o princípio da legítima defesa, que justifica homicídios comuns, pelo que poderia justificar também os abortos. Para estas situações, ou outras que surgissem em debates sérios, defendo que deve haver, dada a actual estrutura da nossa sociedade, interrupções financiadas pelo Serviço Nacional de Saúde.
5. O que não pode acontecer, leitor, é o que vemos hoje: uma aproximação cada vez maior aos padrões de países subdesenvolvidos e um caminho para uma sociedade cada vez com menos sentido ético. Não consigo aceitar que nos transformemos gradualmente num país que, à semelhança de outros, encara o aborto como uma extracção de um dente. Espero, sinceramente, que possa haver novo debate nacional sobre o tema e abertura para uma revisão à lei. Ou isso, ou a vergonha, minha, de aqui andar.