16 de abril de 2014 às 22:48
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A serenata aos desempregados de Passos Coelho

João Lemos Esteves (www.expresso.pt)

Queridos desempregados,

Bem sei que os vossos dias são difíceis. Têm de contar todos os cêntimos com grande e prudente parcimónia: as vossas despesas têm de ser controladas com um rigor extremo. Mas, meus caros, isso é a vida: cada um sabe de si e Deus sabe de todos. Eu não sou Deus: sou Pedro Passos Coelho, rei entre os liberais portugueses. Ainda conseguem comprar esta? Ai, ai, ai, meus compatriotas tão distraídos...ainda bem que assim são: é que tal distracção permitiu-me chegar à liderança do Governo! Vou confessar: o liberalismo entre nós é uma doutrina económica que consiste em enaltecer os vícios e o lado perverso do capitalismo; e, por outro lado, esquecer as suas virtualidades. A doutrina liberal postula que o Estado deve abster-se de intervir na vida económica e social: as forças da sociedade civil devem, pois, desempenhar um papel preponderante na organização societária. Julgam mesmo que iria dar mais liberdade às pessoas, às empresas e aos empresários? Seria uma irresponsabilidade! Pelo contrário, os cidadãos têm de ser cada vez mais onerados, apertados pelo fisco (a propósito, terei de ligar ao Vítor Gaspar para preparar a próxima subida dos impostos - já estamos há muitos dias sem subir a percentagem de um imposto ou de uma taxa); as empresas devem subordinar-se ao poder político, sendo dirigidas por uma elite de luxo, liderada pela minha referência máxima, o Dr. Ângelo Correia e os jornalistas alvo de um controlo intenso e discreto. Ai, o que eu me ri com a minha esposa quando criticava o pobre do José Sócrates por querer comprar a TVI com dinheiros públicos...eu faria exactamente o mesmo! Mas mais sofisticadamente: o meu amigo Miguel Relvas não brinca em serviço! Ainda ontem me contou que já ameaçou mais uns quantos jornalistas e já estão todos caladinhos! Senão, podem crer que o Miguel Relvas lá os mandava para o mesmo caminho que vocês, meus caros: para o desemprego! O Relvas é implacável - mas é isso que o torna tão especial para mim. Enquanto eu permito-me dar um sério e respeitável, sempre muito sério e acima de todos os interesses, o Relvas vai fazendo o trabalho que se impõe junto das redacções e das suas ligações aos espiões e a outras entidades que não releva aqui identificar. Enfim, meus caros desempregados, a mensagem que quero deixar é....Coragem, desempregados, coragem!

Olhem para mim: eu quando saí da JSD, passei por dificuldades. Contudo, graças aos meus contactos, lá consegui que o PSD me indicasse para deputado - e lá fui para o Parlamento. E, depois, o meu amigo Ângelo Correia lá me arranjou um cargo impecável na empresa dele. Estão a perceber onde quero chegar? Com a ajuda de um "amigo especial, vocês podem vencer as dificuldades da vida! Há outro caminho: estudarem, trabalharem afincadamente, terem muito mérito, aplicarem-se, esforçarem-se, dedicarem-se...mas o mais provável, no meu Portugal, é persistirem no desemprego caso sigam este caminho. Aliás, não vos posso dar grandes conselhos sobre como trabalhar com mérito e afinco, visto não ser grande especialista nessa matéria. Arranjem o vosso Ângelo Correia! Mas, acima de tudo, Coragem, coragem, desempregados! Não têm dinheiro para sustentar a vossa família, vêem diariamente os vossos planos e projectos de vida desmoronarem-se - mas nós não mudaremos de rumo pois a Senhora Merkel diz que é muito importante ter aquele "número mágico" de défice. E, garanto-vos, que enquanto eu for Primeiro-Ministro, a vossa situação não melhorará: os impostos irão aumentar; a vida ficará mais cara; as prestações sociais serão menores. Sei que faço muitas promessas que não cumpro - no entanto, podem ter a certeza que estas irei cumprir. Com muita dedicação e carinho por vós, desempregados. Coragem, vá, coragem! Pensem positivo: a razão de ser do vosso desemprego é o que me permite convidar e contratar os meus boys políticos, como o José Luís Arnaut! Imaginem que não estavam desempregados e eu não aplicasse as medidas de austeridade - o que seria do José Luís Arnaut? A ganhar milhões no escritório de advogados? Isso não é vida para ninguém! Precisa de um complemento com a bênção do Estado! Acham que eu iria desamparar o meu amigo Arnaut? Podem ficar descansados que eu não permito que tal aconteça. Mas, para tal, aguentem aí no desempregado e não desanimem: estão a pagar o ordenado do Zé Luís Arnaut, dos meninos do Relvas...Vá, CORAGEM, CORAGEM, desempregados! Até porque vocês são o único indicador que o meu Governo aumenta diariamente: o crescimento económico diminui; as receitas fiscais diminuem; os salários baixam...o desemprego aumenta! Vêem como nós trabalhamos para vocês? Para que não fiquem sozinhos no desemprego? Coragem, desempregado, coragem....

Desempregados, até podem aplicar a frase do político que mais me inspirou (embora nunca tenha lido nada sobre ele, mas ensinaram-me que é fashion citá-lo): "hoje, somos muitos; amanhã, seremos milhões". É isso, desempregados: hoje vocês são muitos; amanhã serão milhões. Ainda mais. Esta é a marca da minha governação.

Coragem, desempregados, coragem!

Nota: Esta carta é ficcional. Contudo, advertimos os nossos caríssimos leitores para o facto de ela conter mais verdades do que qualquer comunicação feita por Passos Coelho até hoje.

Email: politicoesfera@gmail.com

Comentários 13 Comentar
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Agora já não há remédio!
O cronista salienta que os portugueses andam distraídos desde que permitiram que P assos Coelho chegasse a primeiro-ministro. Porém, vendo bem as coisas, a distracção verificou-se muito antes precisamente quando o povo elegeu e deixou governar um outro primeiro-ministro, aquele que deixou o estado de tal forma endividado e sem capacidade de obter mais financiamento externo que se viu obrigado a pedir a demissão do seu cargo e a se sujeitar a assinar um acordo com a "troka" prevendo a implementação das medidas de austeridade que o liberal Passos Coelho está agora a executar. João Lemos Esteves chegou tarde demais para escrever o artigo! Agora já não há remédio!
Sócrates :800mil desempregados Ver comentário
Re: Agora já não há remédio! Ver comentário
Re: Agora já não há remédio! Ver comentário
Exercício nojento de demagogia
Simplesmente, um exercício nojento de demagogia.

Posso ver que o JLE, esse jovem militante partidário, está no bom caminho para se tornar em mais um Relvas, um Silva Pereira, um Bernardino, e outros do mesmo género.

Já aqui escreveu excelentes textos. Este é simplesmente sujo.

Cumprimentos,

António

oreivaivestido.blogspot.pt
Re: Exercício nojento de demagogia Ver comentário
Serenata em dó maior
A música do Passos é velha e relha, é pimba para enganar papalvos, é feita em dó maior para quem trabalha e trabalhou toda a vida.
MUITO BEM ESCRITO, E PARA MUITOS É MUITO BEM FEITO
É uma ironia, infelizmente tornada realidade. Antes não fosse.

E como o articulista diz e muito bem, é uma carta ficcional, mas infelizmente também, contém mais verdades do que as que Passos Coelho já disse até hoje.
E as alternativas?
Um bater fácil e demagógico no Passos Coelho, mas o mais difícil que é dar alternativas ... nada.
Re: E as alternativas? Ver comentário
Re: E as alternativas? Ver comentário
Passos Coelho... o 1º ministro virtual
O artigo de opinião além de engraçado tem uma certa parecença com a realidade.
È verdade!!
O que João Lemos Esteves escreve é inteiramente verdade, quer se goste que não se goste, pena tenho de João Lemos Esteves ter contribuído para a eleição de passos coelho tanto com o seu voto, como com as crónicas a favor de Passos Coelho em plena campanha eleitoral, em minha opinião, esta descontente com a actuação do executivo, deveria ter mais cuidado e efectuar um exercício de memoria do que tem sido este 38 anos pós 25 de Abril e quais foram os partidos que nos trouxeram a desgraça, compadrio, amiguismo, corrupção, roubo, esbulho etc…
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