A saída do Euro e o federalismo não são soluções mágicas
Um dos aspectos mais curiosos do debate sobre a relação Portugal/UE está na forma como muita gente apresenta soluções mágicas e indolores para os nossos problemas: de um lado, a saída do Euro e, do outro lado, uma estrutura federal assente em eurobonds.
Uma minoria afirma que a nossa saída do Euro seria benéfica, porque cortaria o mal pela raiz e relançaria a nossa economia por via da desvalorização cambial. Esta tese tem de responder a quatro pontos. Primeiro, se o Euro é um entrave assim tão grande, por que razão estão as nossas exportações a subir? Os defensores da saída do Euro não podem simplesmente evitar a grande questão que está em cima da mesa das nossas empresas: a economia portuguesa está a mudar o seu perfil exportador, está a evoluir na chamada escala de valor, até porque já não vale a pena competir na liga dos salários baixos. Com a China e derivados integrados na economia global, esse caminho aberto pela EFTA nos anos 60 já não faz sentido para Portugal. Segundo, as desvalorizações cambiais não conseguem atacar o problema estrutural do défice externo, tal como é visível na história recente de Portugal (1977, 1983-85). O Euro é o instrumento que está a forçar Portugal a uma disciplina ao nível da balança exportações/importações. Terceiro, como já defendeu a grande Cristina Casalinho, uma saída do Euro seria sempre antecipada por um esvaziamento dos depósitos, e "não existe desvalorização competitiva que compense esta hemorragia". Quarto, mesmo com o Escudo, a nossa dívida continuaria em Euros. Qual seria o passo seguinte? Um "não pagamos" argentino e a consequente ausência de crédito externo durante mais de uma década?
Uma maioria pede mais federalismo. Por exemplo, o Dr. Seguro acha que as eurobonds iriam resolver por artes mágicas o nosso duplo problema: endividamento a mais e crescimento a menos. Ora, num cenário com eurobonds, Portugal continuaria a estar endividado e a ter problemas de crescimento. O federalismo é uma organização do poder político, não é o pozinho mágico da economia. Como é evidente no caso dos EUA, uma estrutura federal não impede a falência e/ou a pobreza de algumas das suas parcelas. Apesar de partilhar a mesma federação com o Texas e Nova Iorque, o Alabama não passou a ser uma Suíça de hillbillies. Mesmo que tivesse uma dívida financiada directamente pelos alemães e holandeses, Portugal continuaria ter os mesmos problemas, só que seria um Estado ainda menos soberano (assunto para outra discussão).
Em suma, nem a saída do Euro, nem o federalismo resolveriam per se os problemas de Portugal. Durante anos e anos, gastámos anualmente entre 5% a 10% mais do que produzimos, e essa é a grande causa da nossa crise. Portugal tem de poupar e exportar mais, e esse trabalho tem de ser feito com ou sem euro, com ou sem federalismo.


