A saga do reembolso do meu IRS
O reembolso andava demorado, mas não liguei. As notícias sobre os atrasos eram constantes. Porém, o dito começou a ficar atrasado ao estilo do coelhinho de Lewis Carroll. Era já um atraso patológico. Comecei a imaginar o meu dinheirinho a ser consumido pelos ratinhos da troika, em nome da pátria, claro; imaginei até um vampiresco Vítor Gaspar a palitar o meu reembolso na sua dentuça de contabilista do demo. Entre estas e outras dores da imaginação, via e revia o saldo da conta, e nada. Comecei a pensar que o reembolso estava mesmo perdido algures neste estado de emergência troikista. Mas, felizmente, a minha imaginação estava errada.
No final do ano passado, fechei a conta no banco x. Ora, como sou um cabeça-no-ar de nível 5, não coloquei a nova conta do banco y na declaração do IRS. Resultado? As finanças enviaram o dinheiro para a conta antiga, que, atenção, devia estar fechada. O senhor das finanças foi claro: "caro amigo, a transferência está concretizada, tem de falar com o banco". Mas como é que uma conta inexistente pode receber dinheiro? Eu retirei de lá todos os cêntimos, assinei papelada e destruí os cartões à frente dos gestores do banco x. "Pois, não sei, amigo, tem de falar com o banco". Com o meu dinheiro entre as finanças e uma conta sonâmbula, entrei no banco antigo. "Que estranho", comentou o senhor do balcão. A conta estava mesmo aberta e o reembolso estava lá, qual rafeiro abandonado. Como se tudo isto não fosse suficiente, ainda tive de pagar uma comissão bancária para consumar a transferência final para o banco y. Financiar a incompetência alheia é, digamos, um ato de caridade que o meu pobre coração católico não consegue recusar.
A burocracia portuguesa cria histórias inconcebíveis, mistérios do Entroncamento com alíneas e cláusulas. E, neste caso, a má-da-fita do costume, a burocracia estatal, nem sequer fica mal na fotografia. Esta e outras histórias familiares dizem-me que as burocracias bancárias também têm o seu quê de nonsense. O que faz sentido, diga-se. Esta é a malta que viciou a sociedade em crédito, esta é tribo que se fartou de dar empréstimos a pessoas sem estabilidade financeira. E este é que é o verdadeiro nonsense, um nonsense que o país vai pagar durante muitos e muitos anos, durante muitos e muitos reembolsos.


