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A rede

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)
0:00 Quinta feira, 4 de novembro de 2010

"Os Donos de Portugal - Cem Anos de Poder Económico" (Afrontamento) é um excelente documento para perceber quem é quem neste país. Uma das partes mais interessantes do livro trata do trânsito de quadros entre a política e os negócios, estudando o percurso de 115 ex-ministros e ex-secretários de Estado das Finanças e de outras pastas estratégicas.

Chega a algumas conclusões interessantes. Que há uma integração sistemática garantida por esta espécie de correios de interesses, portadores de informação valiosa e de capacidade de influência nos dois terrenos. Saltam de ministérios para conselhos de administração e têm participações cruzadas em várias empresas. Mira Amaral, Nogueira Leite, Murteira Nabo e Luís Todo Bom são os casos mais notórios deste tipo de 'globetrotters'. Que em extraordinários fenómenos de ascensão social a participação no governo é muitas vezes o momento crucial. Ou seja, o aparelho de Estado serve para moldar uma nova burguesia que se associa à velha de um século. E que a promiscuidade entre os principais grupos e os governos é absoluta. Se nuns casos o trânsito faz-se da política para os principais grupos, noutros, como é o caso do grupo Mello, faz-se através de um vai e vem indiscreto. Para se ter uma ideia, um em cada dez dos ex-governantes analisados passaram pelos órgãos sociais do grupo Espírito Santo e um em cada cinco pelos do BCP.

Olhando para esta impressionante rede de poder podemos perceber onde está a origem de algumas decisões ruinosas do Estado português, que hoje pagamos bem caras. É que nem são os que elegemos que nos governam nem somos nós o objeto do seu governo.

Geração cavaquista


Quando Cavaco chegou ao governo de Sá Carneiro eu tinha 11 anos. Quando chegou a primeiro-ministro eu tinha 16. E durante dez anos, coincidindo com os primeiros anos da minha vida independente, vi uma das maiores oportunidades do século passar ao lado deste país. Rios de dinheiro desperdiçados e um modelo de desenvolvimento de pernas para o ar. Um país de patos bravos, esquemas, cursos fantasmas, Oliveira e Costas, Dias Loureiro, Duarte Lima. E um primeiro-ministro que às perguntas difíceis respondia com bolo-rei na boca e à contestação com bastonadas.

Quando Cavaco saiu eu já tinha 26. No seu egoísmo estrutural, enterrou o seu partido por causa de um tabu. Perdeu as presidenciais, porque o país ainda se lembrava do mar de escândalos em que se afogava o seu governo em fim de mandato. Quando finalmente foi eleito presidente eu tinha 36. Foram cinco anos de um estadista pequeno, entre a paranoia das escutas que nunca existiram e a ausência nas cerimónias fúnebres do único Nobel da Literatura português.

Se for reeleito, terei 46 anos quando finalmente abandonar a vida política. Percebam que me custe, que dos 11 aos 46 anos terei vivido a influência deste profissional, vê-lo representar o papel de quem nada tem a ver com o estado em que estamos. Ele, que é a política portuguesa em tudo que ela tem de pequeno: os amigos nos negócios, os truques palacianos, o Estado perdulário. Ele, que tão mal se dá com o que na política vale a pena: o confronto de ideias, a coragem de correr riscos, a ética republicana. Apresenta-se como o último garante moral da Nação mas é talvez o maior símbolo de tantos anos perdidos. Os mais importantes da minha geração.

Daniel Oliveira

Texto publicado na edição do Expresso de 30 de outubro de 2010                       

 
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Estou tentado a concordar
makiavel (seguir utilizador), 2 pontos , 7:34 | Quinta feira, 4 de novembro de 2010
É que, ainda oiço falar dos incontastibilhões que vieram de Bruxelas para o desenvolvimento deste país e que, rapidamente foram transformados em betão e cursos da CEE.

Havia quem se gabasse de ter decorado o gabinete com os fundos dos cursos de formação...e isto era a versão de "trabalho". Fácil imaginar o que teria sido para a vida pessoal de muitos "formadores".

Perdeu-se uma oportunidade que não se vai repetir.
Tivesse havido na altura uma fiscalização apertada e visão de futuro, hoje teríamos mais especialização e menos "desenrasca".

 
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REELEIÇÃO?
carbonária (seguir utilizador), 1 ponto , 1:49 | Quinta feira, 4 de novembro de 2010
Daniel, pelas entre linhas parece-me que está a dar por adquirida essa vitória nas presidenciais...
Ou será da minha avançada idade? Que já nem sei ler o que se deve subentender?
Olhe que, pelo o que soube, conto-lhe mais uma geração em cima da sua e ainda acredito que isso não possa ser possível.
Precisamos acreditar na poesia da vida, senão, a graça vai-se toda p'ró tejo que já nada tão poluído.
Encontramo-nos em Abril, para festejar.
 
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Demagogia a rodos
Jorge Duque (seguir utilizador), 1 ponto , 19:28 | Sexta feira, 5 de novembro de 2010
A demagogia continua em alta neste espaço tão caricato.
Parte 1:
Muitos governantes vão para bancos... Ui! que crime...
Deixe de ser alarmista. O que é que isso quer dizer? Nada! A não ser que prove que o personagem, enquanto governante, cometeu alguma ilegalidade para favorecer o banco. De resto, nos moldes em que a profere, esta sua ideia é oca e demonstrativa de uma imaginação delirante.
Parte 2:
Cavaco persegue-o desde os 11 anos. Mais uma ilegalidade horrenda: a calma existencial de DO é perturbada pela imagem de Cavaco como governante (vá lá, este não foi para nenhum banco).
O senhor lembra-se como era Portugal antes de Cavaco: 6 horas para fazer a viagem Porto - Lisboa; Numerus Clausus para entrar na universidade; RTP 1 e 2, totalmente estatizada; jornais, bancos, seguros, cimenteiras, comunicações - tudo estatal e a dar milhões de prejuízo; eram raros os casos de proprietários de casa própria. Etc, Etc, uma lista infindável de características de 3º mundo. Se as contar a um jovem de 20 anos, ele nem acredita como era Portugal antes de Cavaco.
O nosso querido Portugal parecia a Albânia pré-1990 Será por isso que não gosta dos anos pós Cavaco?
 
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    Re: Demagogia a rodos    Ver comentário
yourmag (seguir utilizador), 1 ponto , 17:23 | Quinta feira, 18 de novembro de 2010
O Polvo
yourmag (seguir utilizador), 1 ponto , 17:10 | Quinta feira, 18 de novembro de 2010
Lembro-me de uma série italiana, de há umas duas décadas, que se chamava o Polvo. E do impacto que teve na altura. Coisas dos iltalianos, da máfia, da promiscuidade com a política, os negócios, o legal e o ilegal. E o papel do jornalismo de investigação (ainda me recordo do semanário O Jornal), que hoje é um animal em vias de extinção.
Feitas as contas daqui a cinco anos tenho 51 anos. A viver sobre a grande referência moral do país. Um homem medíocre, que percebe de economia, mas não de filosofia económica, pseudo honesto, que deixou roubar tudo enquanto comandava o navio, e ganhou umas migalhas no BPN. Incapaz de se emocionar com um livro, uma peça musical ou teatral, pequeno, fechado.Não há paciência para falar do que é ser português? É isto. O servilismo, a ignorância, a incultura, a pequenez. Porque dos grandes que existem, anónimos todos os dias, não reza a história do país.
 
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