À pergunta frequente, e que na verdade constitui um modismo social, "Então você não está no Facebook?", respondi até há pouco com um sim arrastado pelo embaraço. Alguém que jamais se identificaria, mas que sem dúvida me dedicava algum afeto, construíra uma página centrada na minha pessoa, alimentando-a com matérias renovadas, sobre as quais não exercia eu qualquer intervenção. Desaparecida num ápice, admito que em consequência da manifesta timidez que me tolhia, acabei recentemente por substituir a tal presença por uma de que, e esta sim, me assumo em absoluto responsável.
Sinto-me no entanto, e perdoe-se-me a blasfémia, simultaneamente objeto da dramática proclamação de Pôncio Pilatos, "Ecce Homo!", e sujeito afinal da pacífica vontade de apresentar o rosto. Como o ator inexperiente que entra em cena, inseguro da qualidade do seu desempenho, ou como o condenado de mãos atadas, atirado para o meio da populaça, aqui me implanto, conforme costuma dizer-se, "a pedido de várias famílias", e na maior das incertezas sobre o destino informático que os deuses me reservam. Saúdam-me velhos amigos com a reticência de quem pensa, "Só agora?", ou com a irritação de quem conclui, "Só faltava este!", propõem-se-me inúmeros, mais ou menos desconhecidos, e encolho-me na insondável ignorância tecnológica que me punge.
Essa como que fobia convivencial que me domina, entorpecendo-me o indicador sobre o rato, e desnorteando a viagem deste no écran do omnisciente monstro que me dá ordens imperativas, tratando-me por tu, ameaça conduzir-me assim à pura e simples capitulação. Não fora a paciência de quem me guia na tormentosa aprendizagem, teria eu deixado já para outros, e com indisfarçável alívio, a empresa de diligência e lazer que de súbito desatou a marcar, e às vezes tragicamente, o quotidiano de milhões e milhões de seres humanos. Tranquiliza-me quem me inicia no alfabeto das lides, garantindo-me que com o tempo todos os meus medos terminarão por se dissolver. Mas na desconfiança do aluno do ensino básico que não consegue desenhar o caneco que lhe põem à frente, ou trautear os primeiros compassos de A minha Alegre Casinha, agradeço a simpatia, finjo acreditar no prognóstico, e encerro transitoriamente o computador.