A ópera em caricatura na Culturgest
Quatro cantores, um reduzido conjunto de músicos, um cenário minimal criado por um artista plástico: ópera nem sempre é sinónimo de grande produção. Na verdade, a ópera "Uma Vaca Flatterzunge", que estreia este sábado, 31 de Janeiro, na Culturgest, em Lisboa (e repete no domingo, sempre às 21h30), nem sequer é uma ópera, pelo menos no sentido tradicional do termo.
Escrita e dirigida por Vítor Rua, convém prestar atenção à interpretação que ele faz do objecto: "'Uma Vaca Flatterzunge' é uma ópera humorística, de cariz pós-modernista, sob a forma de meta-comentário (enquanto ópera dentro de uma ópera). O compositor que escreve a sua primeira ópera encontra-se com os seus dois cantores principais e um crítico que é também um musicólogo reaccionário".
Claro que esta explicação é preliminar e está longe de esgotar o universo satírico ao qual remete. Mas talvez não seja fruto do acaso que a obra pertença a um músico cujo passado se funde com o que de mais original aconteceu no "art rock" português (Vítor Rua foi membro dos GNR) e no campo da improvisação (foi co-fundador, em 1982, ao lado de Jorge Lima Barreto, de Telectu).
Em finais dos anos 80, Vítor Rua iniciou a sua incursão nas particularidades da música contemporânea, linguagem dominante em "A Vaca Flatterzunge".
A ópera decorre em apenas um acto, dividido em sete cenas que tiveram nomes como o artista plástico Rui Chafes ligados à sua concepção. Foi ele quem criou a escultura que serve de cenografia, enquanto a dupla Ana Borralho e João Galante trabalhavam no movimento, Paulo Abreu no suporte vídeo, Jorge Bragada na caracterização e Ilsa D'Orzac na joalharia e figurinos.
Quem achar absurdo a joalharia fazer parte da ficha técnica poderá verificar a sua pertinência quando conhecer a personagem da Valquíria Barbérie, uma das figuras centrais da ópera: ela é uma prima donna de ares superiores, menos dotada do que ela própria acredita, que não só usa grandes jóias e anéis de prata como, considerando-se injustiçada pelo compositor, readapta livremente uma das árias da ópera.
As personagens correspondem todas ao intuito satírico que percorre a obra do princípio ao fim. Há Pedro Lunático, um cantor de vanguarda especialista em notação serial; há O-Homem-Que Ri/Spectrum, o jovem compositor incompreendido que escreve a sua primeira ópera e acha os cantores uns ignorantes; e há o Dr. Fuinha, o crítico e musicólogo reaccionário, que não compreende o compositor e canta sempre em cantochão.
Vítor Rua explica: "As sete cenas vão descrevendo, através da ironia e da sátira, lugares comuns das óperas tradicionais e de vanguarda: técnicas vocais como o Bel Canto, o vibrato, o falsete, o glissando e o flatterzunge; formas musicais como o recitativo e a ária; bem como estilos musicais como o espectral, o minimalismo, o pós-modernismo e o serialismo".
Tudo é misturado numa enorme batedeira e caricaturado ao limite, não fosse esta uma ópera que brinca com os estereótipos de um meio, de uma época e de uma arte.
Se logo na primeira cena alguém pergunta: "Porque estamos assim a cantar desta forma tão ridícula?"; e se na segunda cena alguém questiona: "Porque és tão serial a cantar?", compreende-se que Jorge Lima Barreto descreva "A Vaca Flatterzunge" como "um fluxo de gestos criativos timbrados pelo humor", e a sua partitura como "um itinerário de atitudes interpoladas com a narrativa delirante".
O elenco que lhes empresta o corpo é inteiramente nacional e formado por Ana Ferreira, Hélder Bento, Marco Alves dos Santos e Margarida Marecos. Entre os músicos, destacam-se Eddie Prevóst na percussão, Vítor Rua no computador e electrónica, Daniel Kientzy nos saxofones, Giacarlo Schiaffini na tuba e trombone, John Tilbury ao piano e o quarteto de cordas Arabesco.


O intuito satírico percorre a obra do princípio ao fim
