24 de abril de 2014 às 22:43
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A odisseia de menino mordido por macaco em busca de vacina anti-raiva

A aventura de Gonçalo, quatro anos, e dos seus pais começou na Tailândia, onde durante uma visita à Ilha dos Macacos a criança foi mordida por um pequeno símio e teve de ser vacinada contra a raiva.
Lusa

Os pais de uma criança mordida por um macaco na Tailândia e que precisava da vacina contra a raiva, viveram uma odisseia até conseguirem vacinar o filho em Lisboa, onde os hospitais não administram o medicamento nem prestam informações. 

A aventura de Gonçalo, quatro anos, e dos seus pais começou na Tailândia, onde durante uma visita à Ilha dos Macacos a criança foi mordida por um pequeno símio. Segundo contou à Lusa o pai do menor, Carlos Pedro Barros, a dentada foi pequena mas obrigou à administração da vacina contra a raiva, cuja primeira dose foi "prontamente dada por um serviço de saúde" tailandês, ficando a faltar mais quatro doses. 

A segunda dose foi tomada quando a família se encontrava em trânsito para Lisboa num aeroporto em Banguecoque, ficando marcada para 23 de Agosto a terceira toma, já em Portugal. 

Convencido de que seria um acto fácil de realizar, o casal deslocou-se ao Hospital Dona Estefânia, em Lisboa, mas a instituição pediátrica disse que não administrava a vacina contra a raiva e que desconhecia onde se fazia. "No Hospital Dona Estefânia disseram-me que a raiva é uma doença que pode matar se a medicação não for tomada a tempo", relata Carlos Barros, justificando a ansiedade que viveu após esta informação. 

O gestor de empresas, de 35 anos, usou os seus conhecimentos informáticos para procurar uma alternativa na Internet, além de realizar sucessivos contactos para encontrar um hospital onde o filho pudesse receber a vacina. Em hospitais como o Santa Maria ou o Curry Cabral - duas instituições de referência a nível epidemiológico - não encontrou qualquer informação.

A Lusa tentou obter junto destas instituições informações sobre a vacinação contra a raiva e corroborou as dificuldades do casal. No Curry Cabral, uma funcionária limitou-se a dizer que o hospital não administra a vacina nem sabe quem o faz, comentando que "talvez já nem se dê" em Portugal, porque "não há raiva".  

No Hospital Santa Maria, a informação avançada foi menos vaga, já que uma funcionária avançou que esta vacina pode ser dada no Instituto Bacteriológico Câmara Pestana (IBCP), em Lisboa.  

A Lusa teve igualmente dificuldades em obter informações no Dona Estefânia, onde, após passagem por vários serviços, foi avançado que estas vacinas "talvez se dêem nos centros de saúde" ou no IBCP. 

Quando os pais de Gonçalo se depararam com a falta de um hospital para o filho receber a vacina, foi-lhes sugerido que tentassem o Hospital Militar, onde as tropas que partem em missão são vacinadas contra a raiva. 

Foi por "especial favor" que o Gonçalo foi vacinado nesta instituição e com "a última dose" disponível, pois os militares tinham usado todas as outras, contou Carlos Barros. 

Só mais tarde, e "depois de muita consulta na Internet e outros tantos telefonemas", é que os pais do Gonçalo perceberam que existe uma instituição que administra a vacina contra a raiva: o IBCP. Mas o IBCP vai encerrar no final de Setembro, estando previsto que a vacina contra a raiva passe a ser administrada no Hospital de Santa Maria, como confirmou à Lusa o director-geral da Saúde, Francisco George. 

Até Outubro, Gonçalo receberá mais duas tomas no IBCP, que pertence à Universidade de Lisboa e presta este serviço há cem anos, mas que está hoje praticamente deserto. 

 

Comentários 5 Comentar
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Uma autêntica odisseia...
... apenas por conta de uma vacina contra a raiva. O que será de que form mordido por um cão raivoso? Vai ter que ir pedir um "especial favor" ao Hospital Militar? É nestas alturas que mais se justificam as críticas ao SNS.
Em vez de criticar informem-se Ver comentário
Re: Em vez de criticar informem-se Ver comentário
Antigamente....
...qualquer hospital fornecia e administrava a vacina....

Faz 40 anos fui mordido por um canideo (não era um cão era mais um burro) e foi-me prontamente administrada a vacina.

Havia no Instituto de Medicina Tropical (ao lado do Hospital Egas Moniz - Belém-Lisboa) uma unidade com capacidadde para tratar estes casos e outros como a malária, febre amarela, coléra e outras doenças tropicais; este instituto era considerado uma unidade de investigação de ponta a nível mundial nestes assuntos....parece que se perdeu no tempo...

Tendo eu um CãoXorro que levo periodicamente ao veterinário, fui informado a dada altura que a raiva em Portugal estava erradicada, pelo que dificilmente era justificada a necessidade de vacinação dos canideos sendo esta (a vacina) inclusivé perigosa para algumas raças...fiquei espantado e ainda duvido desta afirmação!

Contudo e dada a globalização situações como esta podem ocorrer..., o meu maior espanto é que tenham sido os pais a procurar a solução do problema e parece-me que a unidade central de pediatria de Lisboa - Hospital D. Estefânia- devia ser processada por negligência, pois se o doente necessitava da vacina os responsáveis clínicos deviam ter providenciado o medicamento viesse ele de onde viesse....teria sido mais fácil um requisição ao Hospital Militar da RML por parte do D. EStefânia do que o "favor" feito aos pais....

Devem ser apuradas responsabilidades!!!!!!!!!!

Cps.
Tão pequeninos!
A moral desta história é que Portugal, país da velha e erudita Europa, que muitas vezes por raiva, pelos acontecimentos, é apelidado de "país atrasado", é efectivamente mais atrasado que a Tailândia, que fica lá nos confins do Sudeste asiático. Ficamos também a saber que só os militares estão autorizados a serem mordidos por qualquer animal e a tomar a correspondente vacina. Gostamos mesmo de fazer figuras tristes e de demonstrar a irresponsabilidade. Já agora, gostava de saber qual o comentário da Ministra da Saúde a este incidente.
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