Em raras vezes (bem raras, é verdade...) alguns comentadores politicamente à direita pronunciam-se e comentam a vertente cultural da Festa do "Avante!". Vasco Graça Moura fê-lo há uns anos em crónica no "DN", Miguel Esteves Cardoso igualmente, salvo erro, no "Independente", Marcelo Rebelo de Sousa referiu na TV, José Pacheco Pereira escreveu o ano passado.
É curioso verificar que estas intervenções apresentam, nos seus diferentes estilos, o comum reconhecimento de três traços da Festa: a dimensão e o carácter autenticamente popular, o ambiente simultaneamente alegre e tranquilo de uma assistência completamente transversal (todas as idades, todas as origens sociais, todos os interesses culturais) e a qualidade e diversidade da programação cultural. E, nessa diversidade, também a multiplicidade da oferta, do desporto às artes plásticas, da música à promoção livreira, do teatro à culinária regional e, nelas próprias, igual multiplicidade de estilos, tendências, sonoridades.
Nada disto é novidade para os frequentadores da Festa. Mas merece reflexão o contraste com o tratamento habitual da comunicação social, em particular a imprensa.
É claro que nenhuma daquelas quatro personalidades ignora o óbvio: a componente política da Festa, de resto frontal e orgulhosamente assumida pelo PCP e pelos seus militantes. Mas, exatamente porque isso é o óbvio, sentem a singela imposição da evidência e sublinham o que é silenciado.
As intervenções do secretário-geral do PCP, em particular o discurso de domingo (era o que faltava!), e muito de vez em quando um fait divers banal constituem o redutor retrato que de um evento sem paralelo no país fornece a comunicação social.
Este afunilamento resulta evidentemente de trivial anticomunismo, mas é possível vislumbrar algo mais.
Trata-se de tentar silenciar, e assim menorizar, o PCP, as suas propostas e intervenções, a implantação nos trabalhadores, a determinação realizadora, a capacidade de mobilização e diálogo com a sociedade: mas, ao confinar ao discurso político a imagem da Festa tenta-se a sua absurda identificação com quaisquer outras iniciativas de quaisquer outros partidos!
Colocar no mesmo patamar a exaltante realização, política e partidária sem dúvida, mas de uma imensa dimensão cultural e humana, com os escusos favores políticos dos sacos azuis empresariais ou o tráfico de influências partidariamente rentável não é operação inocente quando tanto se discute o financiamento partidário.
A questão é que realizar uma exposição de elevado nível científico sobre biodiversidade, expor dezenas de obras de arte, representar Brecht ou colocar uma orquestra de oito dezenas de músicos sobre um palco e tocar Lopes-Graça ou Rachmaninov para dezenas de milhar de pessoas (que compraram a sua EP!) não é exatamente o mesmo que almoçar com um empreiteiro porque... "precisava de ver umas coisinhas consigo. Está a ver?"
Estamos.
rubencarvalho
Texto publicado na edição do Expresso de 18 de setembro de 2010