A minha tia está à espera de uma consulta de especialidade há cerca de um ano e, no outro dia, disse-me assim: "o que era bom era ter ADSE". Pois era, tia, era mesmo muito bom. Se tivesse ADSE, a minha tia já tinha sido consultada num hospital/clínica privada. Ou seja, a vidinha da minha tia comprova uma das teses defendidas por José Mendes Ribeiro no livro Saúde - a liberdade de escolher: a existência de dois serviços estatais de saúde (o SNS, para o cidadão comum, e a ADSE, para os funcionários públicos) cria uma injustiça no acesso à saúde: o utente do SNS não pode recorrer aos hospitais privados, mas o utente da ADSE já pode recorrer aos privados e, por isso, é tratado com mais celeridade. O utente do SNS está montado numa tartaruga. O utente da ADSE parece a formiga atómica. E isto aplica-se a consultas e a cirurgias.
Neste sentido, a minha tia junta-se a José Mendes Ribeiro numa pergunta legítima: por que razão não se alarga a ADSE a toda a população? Por que razão não se transforma o SNS numa ADSE em ponto grande? Até porque, segundo este autor, o modelo de gestão da ADSE não é apenas mais rápido e mais livre do que o SNS. Também é mais barato.
No fundo, a ADSE é um seguro de saúde obrigatório (uma obrigatoriedade que existe em muitos países europeus) que financia o doente junto do médico escolhido pelo próprio doente. Ou seja, a ADSE faz serviço público através de hospitais e clínicas privadas. Quem diria?
Porém, há um ponto em que a escola da vidinha da minha tia diverge da escola teórica de José Mendes Ribeiro, a saber: a minha tia está mesmo disponível para dar cerca de 1,5% do seu escasso salário para esse seguro. "Se o preço da rapidez na ida ao médico é esse, ok, tudo bem, paga-se isso". Ao invés, José Mendes Ribeiro acha que, numa nova arquitectura de saúde (fusão SNS/ ADSE), a contribuição de 1,5% devia ser extinta. Sim, essa contribuição não é importante do ponto de vista financeiro (em 2007, a contribuição dos funcionários publicou cobriu apenas 160 dos 950 milhões de despesa da ADSE). Sim, essa contribuição até pode ser inconstitucional. Mas em Portugal até o piar dos melros é inconstitucional. Portanto, tenho de dar razão à minha tia: a taxa de 1,5% por uma ADSE-de-todos seria uma boa pedagogia, seria uma forma de a população portuguesa perceber uma coisa: não há saúde grátis. O tendencialmente gratuito acaba no tendencialmente falido.