"Acho uma ignomínia", "é apenas uma infâmia". Era a segunda pergunta de Miguel Sousa Tavares, na estreia do programa "Sinais de Fogo", - questionando se havia ou não relação entre o apoio dado por Luís Figo ao candidato José Sócrates na última campanha eleitoral e o negócio assinado pela fundação a que o ex-jogador dá o nome com a empresa de capitais públicos Tagus Park - e o primeiro-ministro franziu o sobrolho, naquele gesto automático que revela nele que a provocação do jornalista surtiu efeito.
"Nada teve a ver uma coisa com a outra", garantiu Sócrates, que assegura ter em Figo "um dos heróis" da sua geração e ver no seu apoio um gesto "livre e generoso". Coincidência, insistiu Sousa Tavares, um pequeno-almoço de manhã e uma assinatura de um contrato nessa mesma tarde? Sócrates assentiu: "Se alguém quiser lançar insinuações verá coincidências em tudo".
Em defesa de Rui Pedro Soares
A defesa das acusações de que tem sido alvo nas últimas semanas - desde que foram conhecidas as escutas promovidas pela investigação do caso Face Oculta - prosseguiu com a manutenção "do que disse na Assembleia da República" a propósito da tentativa de compra da PT do capital da Prisa na TVI: "Nunca fui informado, nem nunca dei orientações". E sobre as conversas de Rui Pedro Soares alegadamente referindo-se a si: "As referências a chefe devem ser a outras pessoas, a mim ninguém me trata por chefe".
Pedindo ao entrevistador que "não faça julgamentos apressados", ressaltou de Sócrates uma defesa, discreta mas firme, do amigo Rui Pedro Soares. Ele já era director da PT" (antes de ser administrador), insistiu o primeiro-ministro por mais de uma vez, recorrendo até à comparação com Zeinal Bava: "Quantos anos tinha quando foi nomeado administrador?". "Está a ser injusto", comentou por mais de uma vez para Sousa Tavares, acabando com uma declaração de amizade ao ex-administrador da PT: "Eu estimo os meus amigos".
"Estou aqui eleito e não a usurpar o lugar de ninguém"
Questionado pelo jornalista sobre se não se sente desgastado por toda esta sucessão de casos em volta da sua pessoa, José Sócrates garantiu que não sai do lugar apenas por que crescem as pressões para que o faça. "Estou aqui eleito e não a usurpar o lugar de ninguém", afirmou, ressalvando: "Tenho uma tarefa a cumprir e cumpri-la-ei".
Tinham passado 20 minutos desde o início da entrevista quando Sousa Tavares lhe perguntou se nunca tinha desejado o fim do Jornal de Sexta da TVI e o despedimento de José Eduardo Moniz. "Não lhe vou responder", assumiu Sócrates, preferindo a 'fuga para a frente': "Aquele jornal, do meu ponto de vista, não era jornalismo, era política disfarçada de jornalismo". E 'jurou': "Nada tenho a ver com o fim do Jornal de Sexta".
Violação do segredo de justiça: "Este assunto é sério"
Pretexto ainda para introduzir o tema da violação do segredo de justiça: "Este assunto é sério", comentou, lembrando que as democracias são os únicos regimes do mundo que zelam pela protecção da vida privada.
Os últimos 20 minutos da entrevista foram dedicados à situação económica e financeira do país, com o PM a não trazer nada de novo a um discurso a que se tem mantido fiel desde a tomada de posse: a aposta no investimento público como chave para combater a crise, promover o crescimento económico e a criação de emprego e a promessa de que haverá um "sinal claro" de aposta no controle das contas públicas já no final deste ano.
A conversa começara inevitavelmente sobre a Madeira, com José Sócrates a garantir o total empenhamento do Governo na recuperação, tão rápida quanto possível, das infra-estruturas da ilha. "Sem nenhuma mágoa". "A situação é grave e exige a solidariedade nacional (...). Vamos estar juntos".