21 de abril de 2014 às 10:37
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A Madeira depois de Jardim

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)

Não tenho nenhuma opinião especial sobre Monteiro Diniz. Não sei se ainda se lembram quem seja. Foi ministro da República na Madeira durante 14 anos. Sei que não lhe invejaria o lugar. Ocupar um cargo de necessidade e eficácia muito discutíveis (que o próprio defende que deve ser extinto), ser um enviado do poder central e, ainda por cima, tentar velar pela legalidade democrática madeirense, é coisa que nem se deseja ao pior inimigo. Saído do cargo o ano passado, Monteiro Diniz está a preparar um livro sobre a democracia na Madeira. Prometeu coisas que os madeirenses não quereriam ouvir. Eu quero, porque uma experiência de 14 anos de um olhar externo informado pode ajudar a repensar a autonomia à luz da preocupante experiência madeirense.

Numa entrevista ao "Diário de Notícias" da Madeira recorda o óbvio. E isso é bom, porque o óbvio é o que se esquece sempre: "O eleitorado madeirense não surge com o 25 de Abril, tem raízes históricas nas gerações anteriores e no atavismo da ancestralidade, que os atuais madeirense não deixam de ter presente na chamada memória colectiva de uma sociedade. (...) Estamos a falar das condições económicas da sociedade madeirense antes do 25 de Abril, com a colónia, com a insuficiência grande de condições de capilaridade social, com a emigração massiva. (...) Havia entre 60 as 70 mil bordadeiras de casa e o povo madeirense era despojado de qualquer ligação patrimonial, porque eram apenas colonos, que viviam com uma ligação à terra, do esforço do seu trabalho, os chamados 'vilões'. Havia depois uma pequena burguesia, com influência dos estrangeiros endinheirados, que passaram a dominar a vida económica e depois as mulheres bordavam e os homens vendiam os esforço do seu trabalho braçal. Não havia uma classe minimamente suportada na terra, que é isso que dá uma certa coesão social e uma capacidade crítica do sistema. Por outro lado, o 25 de Abril e a Constituição criou na Madeira um sistema de Governo parlamentar, que exigiria, para o seu funcionamento exato, uma estrutura sólida da classe média e mesmo que a classe média baixa fosse detentora de uma certa autonomia, de uma certa independência económica, para poder gerir e depois distribuir com total independência o seu voto no plano eleitoral. Não sucede isso porque é uma sociedade totalmente dependente."

A longa citação (com a qual só concordo parcialmente) serve para, antes de se falar de "jardinismo", percebermos que não há análise política que possa ignorar as condições históricas e sociais em que uma democracia se tentou impor na ilha. E que as da Madeira eram tudo menos favoráveis. A dependência dos madeirenses em relação ao poder político, a sua pouca autonomia e facilidade de ali se instalar o poder de tipo caciquista não resulta apenas do que foram os 34 anos de governo jardinista. Alberto João Jardim é mais consequência do que causa.

O antigo ministro da República dá a entender que a autonomia falhou. E mostra um sinal disso: "há uma certa impotência das pessoas que fazem reivindicação permanente junto da República, quando a República, a partir da constituição do sistema autonómico, entregou uma parcela importante do poder político à estrutura regional". E diz, aí sem tibiezas, que o sistema parlamentar na Madeira falhou, já que todo o poder se deslocou, ao contrário do que a Constituição previa, para o presidente do Governo Regional.

A Madeira mudou muito nos últimos 38 anos. Graças à autonomia e ao 25 de Abril e apesar de Alberto João Jardim. Sem ele, teria mudado muito mais e para muito melhor. Mas o atraso social e político é ainda brutal. Não há soluções mágicas para quebrar o ciclo de dependências sociais e das perversões políticas que resultam do poder absoluto de um homem e de um partido-Estado e o alimentam. Talvez parte da resposta possa vir com a sucessão de Jardim.

Miguel Albuquerque, presidente da Câmara Municipal do Funchal, é, segundo as sondagens, o sucessor favorito para os madeirenses. Jardim não só não o suporta como tem feito uma campanha contra ele, a que ele tem reagido de forma clara e aberta. Coisa nunca vista no PSD Madeira. Albuquerque é filho do regime jardinista. Mas, sabemos pela história, os regimes são muitas vezes destruídos pelas suas próprias crias. E a brecha que Albuquerque está a abrir no jardinismo pode conseguir o que a oposição nunca sequer sonhou: que a Alberto João Jardim não suceda quem Alberto João Jardim quiser.

Mas mesmo que isto aconteça, falta o resto. Aquilo de que fala Monteiro Diniz: falta, para que a democracia madeirense atinja uma maturidade que lhe permita gerir a sua autonomia com alguma normalidade, que a sociedade madeirense mude muito. Não depende apenas da parlamentarização da Madeira - a que nem as atuais forças políticas da oposição parecem conseguir dar alguma credibilidade -, apesar disso ser importante. Não depende apenas de quem seja o sucessor de Jardim, apesar disso ser condição fundamental. Depende, acima de tudo, de opções económicas e sociais muito profundas. Miguel Albuquerque poderia significar o fim do jardinismo. Mas não sei se significará o começo de outra coisa.

Comentários 24 Comentar
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Análise necessária
Que eu saiba, nunca se tentou fazer um trabalho de fundo, que se debruçasse sobre o fenómeno Jardim. Esperemos que o ex delegado da República, madeirense, julgo eu, nos possa abrir a porta da compreensão desse povo, com uma imagem de submissão e respeito reverencial, que confrange.

Sabemos da grande dependência económica que as pessoas sentem em relação ao Governo Regional, quase único cliente e pagador, aliado a uma grande influência da Igreja, que sempre aconselha paciência e reverência aos poderosos.

Esse livro pode ter muito interesse, o autor esteve numa posição de observador privilegiado e DO foi oportuno em chamar a atenção para o assunto.
Re: Análise necessária Ver comentário
Monteiro Dinis a tomar chá na Madeira!
A Democracia não é só um bom discurso e a palheta afiada no palanque da demagogia.
Goste-se ou não de Jardim, o facto é que ele fez obra,fez muitas obras.Correu riscos,ouviu muitas críticas e por certo fez muitas asneiras.
O Povo da Madeira é um Povo Livre,não é um Povo escravo!
Jardim vai sair,a Democracia vai continuar a funcionar e o PSD escolherá concerteza quem o vai substituir no partido.
Depois em eleições se verá se o PSD continua à frente da região ou dá lugar a outra gente.
Mas pelas opiniões agora de Monteiro Dinis,fica a ideia que este Sr.passou lá estes anos todos a tomar cha com os jardinistas:é que não se ouviu nesse periodo nenhuma crítica ao seu anfitrião!

Depois e em eleições se verá se o PSD continua no poder ou dá lugar a outra gente.
Monteiro Diniz,o ex da República na Madeira esteve lá 14 anos: pelas críticas que agora apresenta fica a ideia que passou o tempo a tomar chá.
É que durante esses anos não são conhecidas opiniões contrárias ao regime jardinista!
Opinião palaciana.
Daniel Oliveira quis falar da democracia na Madeira e para colmatar a sua ignorância sobre as razões de fundo que determinaram que se centrasse num só homem, Alberto João Jardim, a esmagadora maioria das decisões relevantes para o trajecto seguido por esta região autónoma nas últimas tês décadas socorreu-se da opinião palaciana de Monteiro Dinis. Este antigo Ministro da República que permaneceu em funções no arquipélago 14 anos, sempre esteve enclausurado no seu palácio (Palácio de S. Lourenço), não era visto na rua, nem nas localidades, nem nas empresas, não frequentava espaços desportivos, nem eventos sociais; sentia fobia do povo sobre o qual agora apresenta um estudo sociológico e político.
Mais uma vez e pele enésima vez, se fazem desajeitadas avaliações sobre o comportamento colectivo de um povo, tendo a maioria delas servido como base para intervenções políticas de governantes e outros agentes políticos da República e também alguns regionais. Porém AJJ só muito raramente caiu em tais erros, sendo um dos factores mais preponderantse da sua permanência no poder. Ele sempre soube identificar as carências e anseios das populações, usou essa sua capacidade para as motivarem a aderir ao seu projecto e ainda teve a capacidade de superar a falta de recursos necessário à execução das políticas que “acordava” cumprir. Quando a falta de recursos for insuperável, e começa a sê-lo com demasiada frequência, será o fim de um ciclo.
Opinião palaciana. Ver comentário
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Bom Artigo
Caro DO

Se nuns dias tenho que vir cá discordar completamente, noutros estou 100% de acordo.

Gostei muito deste.

Cmps,

António

oreivaivestido.blogspot.pt
DO
Será que a opinião de certa gente será que AJJ está para a Madeira como o PS para o país, ou melhor a esquerda que temos?
O descendente
Daniel Oliveira é um senhor que apenas conheço dos meios de comunicação social. Não concordando com quase nada do pensamento político que exprime, devo dizer que aprecio o estilo, a elegância formal e a contundência.
Da relação com a Madeira, adivinho que que o Sr Oliveira não a tenha desinteressada. Afinal, é filho de Herberto Hélder, um dos mais difíceis e proeminentes vultos da Literatura Portuguesa e madeirense, de ascendência judaica. Em nome do pai, Daniel Oliveira interessa-se pela Madeira e pelo povo que também deve sentir, um pouco, como seu. Em nome do seu pensamento político, interessa-se pela Madeira porque ela simboliza, melhor do que qualquer outro espaço nacional, a demora anormal em estabelecer uma sociedade democrática mais de 30 anos após o 25 de Abril.
Quanto ao seu artigo, como sempre bem feito e estruturado, deixo apeneas duas reflexões: a primeira é a de que o Juíz Conselheiro Monteiro Diniz não é político mas é um homem interessado e intelectualmente brilhante. Seja o que for que escreve no livro, valerá a pena ler. A segunda é a de que se hoje em dia o Regime Jardinista está mais perto de ser derrubado por dentro do que por fora, é por via de uma Oposição irresponsável (PTP, PND), auto-fágica (PS) e anedótica (CDU, BE), que deixou o Sr Jardim e todas as gaivotas da sua traineira em festa, carregada de atum que o Governo Central ia deixando caír, fazer a festa que bem quis desde 1976 até hoje. Foi preciso as gaivotas brigarem, por falta de atum...
Tudo na mesma
Não vejo que Miguel Albuquerque seja sinal de nenhuma mudança. O "jardinismo" da Madeira é muito mais que AJJ, já que estamos a falar de décadas de poderes instalados, que envolvem muita gente, muitas empresas e muitos lobbies. Não será um único homem, ainda por cima saído do sistema, que o irá mudar.
Re: Tudo na mesma Ver comentário
é como..
as primaveras árabes. Atrás de um, vem outro.

barbarraridades.blogspot.pt/
Excelente.
Excelente análise da sociedade madeirense por parte de DO.
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O Líder da Confindustria contra o Euro.

O que se passa em Itália? Quase ninguém no estrangeiro sabe.

Colo abaixo um link do Jornal Italiano "La Nazione" mesmo se seja impossível abri-lo.
Ou podem ir diretamente para este sítio escrevendo:

www.lanazione.it/ a fim de conhecerem todas as noticias sobre a Itália.

Para ler o artigo deve-se recopiá-lo palavra após palavra inserindo-o como URL.
Depois, através de um tradutor de páginas web, serão capazes de lê-lo em Português
E a tradução é bastante boa. A vocês a escolha.

Faço-vos notar que o Dr. Squinzi é o Presidente da Confindustria. Não é um qualquer mas o líder do sistema industrial Italiano. E se ele fala assim, significa que as coisas correm mal, muito mal.

qn.quotidiano.net/economia/2012/06/28/736043-confindustria-crisi-abisso-danno-di-un a-guerra-consumi-pil-in-calo.shtml

Este cá é o título do artigo:

"Na Itália, a crise fez os danos de uma guerra "
Confederação avisa: 'Estamos no abismo " Relatório: "Atingidos jovens e a indústria manufatureira" -2,4%, o consumo das famílias para baixo.
       
                                                                        omissis

Re: O Líder da Confindustria contra o Euro. Ver comentário
Falar depois é fácil
Se Monteiro Diniz produz agora uma análise deste calibre, pergunto como raio se manteve no cargo 14 anos a assistir impávido e sereno a tal estado de coisas? Curiosidade sociológica?

Mais uma vez Daniel Oliveira elabora sobre os povos que não se sabem governar, dependem de quem lhes dá de comer e como tal tal têm de ser governados por um qualquer despota iluminado que os proteja do primeiro demagogo que lhes ofereça bacalhau a pataco.
Ora a democracia é mesmo assim. A maior parte das vezes não gostamos dos resultados nem do que resulta dos resultados.

O que escreve sobre a Madeira pode aplicar-se ao país em geral. Mas depois espanta-se que a Alemanha não queira pagar-nos as dívidas, quando defende precisamente o mesmo na relação entre o continente e a Madeira (que são ambos Portugal).

Em 1975 alguns candidatos a déspotas iluminados impuseram a este país coisas extraordinárias como o Pacto MFA-Partidos, queriam governar com as massas, apelaram ao voto em branco, cercaram uma Assembleia Constituinte democraticamente eleita, na qual dispunham de menos de 15% da representação, tudo muito progressista e em nome de conquistas revolucionárias que tinham de ser defendidas dos resultados eleitorais.

É quando o Daniel Oliveira fala de democracia que se torna mais instrutivo sobre aquilo que realmente pensa.
Re: Falar depois é fácil Ver comentário
Re: A Madeira depois de Jardim
Eu por acaso não vejo muitas diferenças no que se passou na Madeira e o que se passou no continente. Não vejo diferenças em marinas ou centros de saúde vazios e em auto-estradas sem trafego.

Nos últimos 30 anos o que se passou neste país não tem nada a ver com a falta de democracia mas sim com o oportunismo em quem tem acesso ao poder, basta ver os titulos de hoje do Expresso. Somos e pelos vistos vamos continuar a ser governados por gente irresponsável em que apenas age em interesse própio e dos "amigos".

Pensar que com a saída de Jardim haja mudanças é de uma inocência estúpida porque o problema não está nas pessoas mas nos esquemas montados e esses nunca desaparecerão, aqui e em qualquer lugar.

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