Por muitos faróis que se ponham num jipe, nunca parecem ser suficientes para iluminar a pista das 24 Horas TT de Fronteira. Mais depressa focam as lebres e os coelhos no meio do mato que as valas e as pedras no enfiamento do capô do carro. Depois, há que contar com o nevoeiro em vários tons, até preto, quando os carros a diesel com as bombas injectoras muito abertas nos ultrapassam.
Apesar de tudo isto, as voltas nocturnas a este circuito de 17 km junto à vila alentejana de Fronteira são o maior prazer desta prova. É preciso interpretar rapidamente as sombras projectadas à nossa frente: será um salto, será uma vala atravessada, será uma regueira? Do acerto da decisão pode depender o resto da corrida ou, pelo menos, uma ida à box para remediar uma roda arrancada, um amortecedor partido ou alguma chapa para endireitar.
Aos carros mais rápidos costuma chamar-se na gíria "aviões". Aperecebemo-nos da sua aproximação pelo clarão das baterias de luzes e, num ápice, o que era um ponto luminoso no retrovisor não tarda a transformar-se num carro a pedir passagem. Mandam as regras encostar mas nem sempre há por onde e, com chuva, deixar fugir o carro para as zonas muito enlameadas pode acabar mal, quer para o "ultrapassador", quer para o ultrapassado.
Ao nascer do dia, alguns parecem tomar o freio nos dentes e em vez de perceber onde estavam os buracos que, no escuro, nos demoliam a suspensão, desatam a acelerar que nem desesperados, Foi assim que, à nossa frente, de repente, uma Nissan Terrano saltou no ar e se atravessou a toda a largura da pista entre vedações. Toda a gente travou e, até aparecer um jipe da organização para puxar o carro acidentado para o meio do campo, gerou-se um engarrafamento monumental.
A uma hora da chegada, apesar de alguns precalços, desde uma bomba de embraiagem que pingava a um escape pendurado por arames, não nos podemos queixar. O nosso velhinho Patrol GR está quase com 70 voltas, muito mais de metade das do carro que vai à frente, e que são o limiar da entrada na tabela final de classificações. E, tal como o ano passado, a duas horas do fim, o carro que parecia ir ganhar a corrida incendiou-se no reabastecimento e ficou fora de combate. Adeus "buggy" da equipa luso-francesa dos irmãos Andrade, um dos animadores habituais desta prova.
Se tudo correr bem, participaremos no desfile final após a chegada, com os carros enlameados e imundos mas cobertos por cachos de pilotos, mecânicos e amigos.